quinta-feira, 22 de junho de 2017

Estafa

Dicionário: Estafa  é o estado onde uma pessoa encontra-se submetida a uma forte pressão externa ou interna, levando à estafa física ou emocional.

Apesar dos sintomas claros como irritação, sono conturbado, impaciência, a estafa é dissimulada e se confunde com o estresse que fica vários pontos abaixo numa hipotética escala de valores emocionais, digamos assim.

O maior problema da estafa é que nos deixa extremamente sozinhos. Como temos consciência de que “algo não vai bem”, ou que uma conjuntura de tensos fatores decidiu marcar um bate papo a mesma hora, há uma tendência de ficarmos na moita. “Não vou lá porque ando meio estourado e vai que Fulano toca num assunto complicado”, e assim o estafado vai se isolando e acaba engolido pelos pensamentos. 

E os pensamentos do estafado são sempre caóticos.

O estresse se dá em picos ocasionais. A estafa é constante, crônica. Pega e não larga. Quer dizer, larga sim. A certeza ou a consciência da estafa já são um passo importante, agitar o corpo com ginástica e similares começa a resolver e não esperar demais ser compreendido é a sentença final. Da estafa. Ninguém é obrigado a compreender, aturar, engolir um estafado. Só ele.


Pelo menos.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

89 invernos

                                                                    

terça-feira, 20 de junho de 2017

Festa Junina

Neste 24 de junho é comemorado o dia de São João, padroeiro de várias cidades, entre elas Porto Alegre e Niterói. Feriado municipal e pouquíssimos arraiais acontecendo. Não sei por que. Deixei de frequentar as poucas festas juninas por causa da lambança que andam fazendo na trilha sonora. Ao invés de canções tradicionais tocam esses entulhos como sertanejo universitário e até funk.

Tempos atrás almocei com o colega Eduardo Lamas no Centro do Rio e na volta , a caminho da estação do catamarã para Niterói, vi na Praça 15 um cartaz anunciando uma festa junina. Típica e tradicional. O desenho trazia uma fogueira, gente fantasiada e até os perigosos (e hoje inviáveis) balões. Embarquei e a meu lado sentou um sujeito que era a cara do Danny Devito: baixo, gordo, careca, que não largava o celular.

Fez várias ligações porque a linha caia. Ele orientava uma mulher do outro lado da linha que arrumava a mala dele. Foi gozado. Ele dizia “não, gravata não precisa, vou descansar...bota as duas escovas de dentes, muitas meias e cuecas de algodão porque lá faz frio...não, o casaco de courvin vou levar na mão caso esfrie no caminho. Ah, leva meu radinho” e assim o cara veio até Niterói falando, gesticulando, arfando.

Curioso, quando a embarcação atracou fiquei ouvindo a conversa sobre o tal fim de semana na serra que o cover do Devito ia ter. Devito que, lá pelas tantas, disparou: “não esqueça da minha roupa para o casamento na roça. Os arraiais de lá são imperdíveis”. Onde seriam esses arraiais, num lugar frio, onde o nosso personagem cai na gandaia? Cara de pau, perguntei. Sorridente, ele respondeu “em Santa Maria Madalena, é claro. Onde mais?”.

Voltando ao cartaz da festa junina, bateu saudade. Saudade das grandes festas que frequentei ao longo do tempo, onde mergulhei em arraiais com fogueiras gigantescas, bandeirinhas, pau-de-sebo, comidas típicas, quadrilhas. Saudade daquele cheiro de lenha queimada, do som primitivo dos conjuntos tocando e, logicamente, dos balões, meu fascínio desde que nasci.

Saudade de um arraial gigantesco que fui certa vez em Teresópolis, outro em Friburgo, mais um outro em Araruama, vários no Rio e em Niterói e em Porto Alegre também.

Este ano vou correr atrás de pelo menos uma festa junina. Meu lado lúdico cobra, quase implora e merece. Com bombas, crianças a caráter e tudo mais. Quem procura, acha. 


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Enjoo dos Beatles

Há tempos não ouço FMs pelo dial. Optei pela internet por razões quase óbvias: ouço um monte de webradios pelo smartphone quando ando por aí (e ando muito por aí) ou nos desktops da vida já que, por motivos que não quis investigar (preguiça) não gosto de notebooks nem de tablets.

Um dia, logo que entrei no táxi, tocou uma música dos Beatles no rádio e eu senti um pouco de náusea, mal estar mesmo. Reagi mal aos primeiros acordes de “Let it Be” (era essa a música) e me assustei. Estaria ficando de saco cheio dos Beatles? Quando? Onde? Por que?

É verdade. Uma verdade que eu suspeitava mas não confirmava porque achava um absurdo. Mas estou enjoado de boa parte das músicas dos Beatles, não por culpa de Lennon, McCartney, Harrison e Starr, mas por causa da overdose de covers, tributos, versões, imitações, enfim, a molambalização que estão fazendo da obra da maior banda da história do rock. Exemplo: tema de novela, a versão cover vagaba de “A Hard Days Night” é uma cusparada nos tímpanos, chacina de otorrinos, é de fazer mandril comer fuzil. Aquilo é absolutamente lamentável.

Com o passar do tempo (e das versões, dos covers, das homenagens e cusp!, tributos) fui enjoando. Não aguento mais ouvir Hey Jude, nem Something, Yesterday, enfim, a lista é grande mas parou de crescer porque optei por parar de ouvir Beatles.

Voltei a ouvir graças ao espetacular CD “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, edição especial de 50 anos, remixada, com várias faixas bonus bem legais com ensaios, etc. Depois de minha “greve” ouço canções que não foram sucessos mundiais e muito menos fontes de cobiça de aproveitadores fantasiados de beatlemaníacos que jogam lama sobre a obra dos chamados Fab Fours. Principalmente os que fazem o traste chamado “tributo” que, em geral, urina sobre a biografia do homenageado.

Uma vez, no Rio Grande do Sul, no meio de um “tributo a Stevie Ray Vaughan um cara da plateia, meio bêbado, levantou e quis bater no líder da banda. Com razão porque aquilo que ele estava cometendo não era Stevie Ray Vaughan nem no Paraguai.

Percebo que o próprio Paul McCartney está preocupado com a super exposição de muitas canções dos Beatles e a cada turnê varia, busca músicas mais alternativas, enfim, o GPS do Macca já percebeu que os Beatles não merecem morrer de overdose.

Puxei assunto com o taxista que disse gostar dos Beatles e que, inclusive, foi a um show do Paul McCartney. Perguntei se ele não estava cansado de ouvir algumas canções e ele disse que “essa aí toca muito...já está meio batida”, referindo-se a “Let it Be”. Para escrever esse texto liguei para alguns amigos ligados a música e todos, absolutamente todos, concordaram que por causa dos covers, versões, etc. os Beatles estão cansando.

Um conhecido montou uma banda que toca Beatles me mandou e-mail/convite para a estreia e tal, mas acabei não indo. Semanas depois encontrei com ele no Leme e veio a fatídica “pô, não foi ao show...” Fiz o que tinha que ser feito: abri o jogo, falei a verdade, disse que não vou mais a show de cover de Beatles. Ficou tudo bem, como sempre acontece quando falamos a verdade.

Recentemente, estava num bar conversando com amigos e o violeiro que nos punia com a famigerada música ao vivo começou a tocar Beatles. Pedi a conta e fui embora antes dele chegar ao refrão porque a banda que sacudiu o planeta não merece um final tão melancólico como o esquecimento, consequência de overdose de exposição.


sábado, 17 de junho de 2017

Autocensura a flor da pele

O VALOR DO SILÊNCIO

"Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio." 

Clarice Lispector, 'Jornal do Brasil (1968)' 


Aqui na psicodélica cabana da minha crônica insignificância ouso compartilhar alguns draminhas pequenos burgueses com minha meia dúzia de quatro ou cinco leitores. Draminhas (ideal seria dramecos) que não interessam a ninguém.


Escrevo esta coluna son a mais severa, dura, moleca e (posso falar?) escrota das censuras: a auto censura. Um vulcão de cabeça para baixo que incendeia o meu âmago e entra em erupção de fora para dentro, fritando a alma imoral.


Trabalhei sob dura censura no regime militar. Escrevi no Pasquim, no Opinião (ambos sob censura prévia) e vi os burocratas da polícia com canetas pilot riscando com azul e vermelho. Azul para matérias liberadas, vermelho para censuradas. O Opinião pertencia ao empresário Fernando Gasparian e funcionava no Jardim Botânico. Uma vez ele foi reclamar que 90% de uma edição tinha sido censurada, inclusive a minha matéria sobre indígenas tratados como entulho na Casa do Índio, entidade assistencialista do governo que funcionava na Ilha do Governador. Em resposta ouviu um "f...da-se!".


Volta e meia o Opinião era apreendido. Com o Pasquim, a mesma coisa. Mas a minha insignificância era mais corajosa e eu ousava cuspir
simbolicamente nos olhos dos meganhas tentando ir mais além. Não dava. A caneta vermelha era imperativa, degolava e fim de papo. Nunca fui preso, molestado, perseguido censurado porque era fichinha, estafeta das letras miúdas, "hippie de Vaz Lobo" como me chamava o grande e saudoso J.A. Xavier. Em compensação, quando liberado, escrevia sobre tudo, opinava livremente, enchia a bola, baixava o cacete.

Aqui nesta Coluna do LAM, não. Sou autocensurado do princípio ao fim. Acho que 1/1000000 do que realmente sinto, penso, acho, procuro, vejo, presumo, não publico porque posso ofender alguém, posso estar politicamente incorreto, posso não estar sendo de bom tom, posso....posso nada.


Nem escrever sobre o nada escrevo porque o nada é um conceito subjetivo tão amplo que, muitas vezes, simultaneamente, enche de porradas e beijos com língua. Algo como.


Um
a mulher com cabeça de peixe.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Imoralismo

O saudoso humorista Leon Eliachar escreveu que "tarado é um homem normal pego em flagrante". Quem lê meus posts no Facebook (cada vez mais magros, com grave tendência a sumir) sabe que já fui severamente policiado por um covil de "politicamente corretos", frequentadores aqui da Coluna, o que aliás não entendo. Acho preocupante perceber que essa laia tem frequentado a Coluna.

Desde que ingressei numa nova era de reinvenção existencial moderada, ou cavalo de pau, ou “volta que deu merda”, “destrepa tudo”, etc. não acho mais nada, absolutamente nada, preocupante.  O que dirá as afetações e pequenas canalhices de supostos leitores de redes sociais.

Tempos atrás, no inbox do Facebook, algumas defenestraram uma crônica que escrevi sobre minha puberdade/pré-adolescência no Campo de São Bento, em Niterói. Xingaram de poço de perversões, atentado a moral e aos bons costumes, papo de tarado fundamentalista e tudo mais.

Pensei se tratar de galhofa de amigos ou conhecidos, mas depois percebi era mesmo reação de leitores anônimos (e anacrônicos), cujo I.P. (Internet Protocol, o endereço na internet), que aparece para quem usa o Blogger, mas nunca conferi porque tenho mais o que fazer.

A reinvenção existencial moderada me faz assassinar algumas penumbras emocionais que precisam ser assassinadas e por isso reli a crônica umas três vezes. Constatei que o suposto mar de devassidão não passa de pueris vivências e desventuras de um garoto vivendo a liberdade possível em seus 12, 13 anos de idade.

Um adorador de mulheres surfando a liberdade possível e clandestina porque a sociedade moralista, nos moldes nelsonrodriguianos, conseguiu esconder os seus orgasmos diante de situações nefastas como assassinatos de crianças, linchamentos de mendigos, torpes tragédias sociais em geral.

É essa sociedade moralista que dá altíssimos índices de audiência aos programas de TV e rádio do estilo mundo cão, e também jornais e outros tipos de mídia especializados em sangue, suor e lágrimas. Bom lembrar que as casas de sadomasoquismo e swing tem os “moralistas” como clientes preferenciais.

Detonei qualquer possibilidade de mudar os rumos do que escrevo aqui na Coluna, um espaço assinado, com endereço conhecido, frequentado por pessoas de todas as idades e escrito, modéstia à parte, por um jornalista com mais de 40 anos de profissão que sabe, exatamente, endereço, telefone e e-mail da Dona Ética e seus parentes próximos.

Vou continuar exercendo a liberdade de escrever sobre temas mais ousados já que estamos assistindo ao verdadeiro escárnio contra a moral representado pela corja que assaltou o Estado brasileiro. Felizmente indo em cana, um por um. Isso sim é perversão, é escarrar na cara tudo o que existe de mais limpo, honesto, íntegro.

Não será a micro saga de um garoto conhecendo o sexo que deve ser linchada pelos politicamente corretos, em geral ladrões, safados, pervertidos e pedófilos. Agraço aos leitores que me incentivam, estimulam, levam o que escrevo aqui para o terreno do humor, da boa vida, para o jeito positivo de encarar a existência e não para as sombras dos "corretos" com aspas, que vivem no limbo sob o signo das taras mal resolvidas e da perversão social suprema.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

“Responder e-mails profissionais é uma obrigação”

O título está entre aspas porque quem disparou a frase foi um colega meu num restaurante/bar do Largo do Machado (Rio) tempos. O assunto na roda (uns 10 caras) era e-mail. Todo mundo indignado com o fato de mandarem e-mails que não são respondidos.

Dias atrás aconteceu comigo. Enviei um para um executivo do mercado de discos, mensagem mega importante, mas até agora não recebi resposta. Tive o cuidado de chamar atenção, algo do tipo “favor confirmar o recebimento”. Nem isso. Se bem que antes de enviar a mensagem várias pessoas me avisaram que “esse cara não responde e-mails...”, insisti e deu no que não deu. Por isso o mercado de trabalho na minha área, que é a COMUNICAÇÃO (em maiúsculas) bate a porta na cara de quem não exercita a COMUNICAÇÃO. Trabalhar em COMUNICAÇÃO e afins e não responder e-mails profissionais é degola na certa.

Voltando ao restaurante/bar do Largo do Machado, eu estava na boa, me divertindo com o assunto, mas lá pelas tantas opinei: “não responder a e-mails é a maior escrotália. Pior do que bater com o telefone na cara”. E voltei a me atracar com o filé à Oswaldo Aranha que, aliás, estava sublime.

Saí do bar e a caminho de casa, madrugada com brisa e lua, pensei no assunto. Ano passado mandei um e-mail para uma empresa com uma proposta profissional que interessava a mim e a ela. E-mail curto e super objetivo. A empresa não respondeu e dei o assunto como encerrado. Dias depois mandaram uma mensagem dizendo que achavam a minha proposta muito interessante e que gostariam de marcar uma reunião “presencial” (palavra ridícula). Não respondi. Encheram o meu saco, mandaram vários outros e-mails e acabei bloqueando. A minha proposta profissional envolvia parceria, dialogo, troca de e-mails. Se no primeiro já deu errado, com certeza iria dar tudo errado no futuro. Perderam um ótimo negócio.

O telefone celular é extremamente invasivo e o WhatsApp, para mim, é um papagaio neurótico, mal comido e obsessivo enchendo o saco 57 horas por dia. Um dos colegas da mesa do bar, as gargalhadas, contou que o celular dele tocou durante um tenso exame de próstata, quando o médico só mantinha nove dedos das mãos do lado de fora.

Acho o e-mail a menos invasiva forma de comunicação porque quem recebe teve que entrar na internet, acessar o programa de mensagens, enfim, se preparou para isso.

Já há algum tempo venho radicalizando. Pessoas de meu convívio profissional que não respondem a meus e-mails são limadas de minha lista de endereços. Ainda bem que são poucas, pouquíssimas. Todos nós temos defeitos, vários. Entre os meus está essa intolerância com a falta de consideração, em geral praticada por pessoas que nos acham babacas, quando na verdade babacas são elas.

Ou não?