sábado, 19 de agosto de 2017

A esquerda que vivenciei

Minha adolescência foi apolítica e selvagem, no bom sentido. Mesmo quando comecei a escrever em jornais locais, com 15 anos, política era um tema distante, velho e que, com o tempo (o meu tempo) tornou-se proibido. A ditadura estava no auge (anos 70) e ninguém explicava o que estava acontecendo para nos resgatar do estranho planeta da alienação ideológica. Na verdade, meus amigos e eu estávamos com o radar em outra posição: meninas, mulheres, música, passarinhos, pipas, balões, sítios, cavalos, praia, espinhas no rosto, punheta.

Os professores de História do Brasil iam, no máximo, até Getúlio Vargas, descrito como um escroto pelos mestres (mais tarde comprovei) como se o Brasil tivesse sido parido em 1500 e abduzido em 1954. Havia alguma curiosidade nossa com relação a aquele mormaço provocado pelo silêncio imposto pela ditadura, mas ainda assim, não quis me informar mais, apesar de saber o que significava a pichação “fora comunas” ou “morte aos padres filhos da puta” em alguns muros da cidade.

Quando comecei a trabalhar na grande mídia aos 16 anos, mantive os primeiros contatos com pessoas ligadas à esquerda. Foi quando soube, abismado, que a carnifica no país seguia seu curso macabro e aprendi que minha cautela era máxima, apesar de nunca ter militado em nada, nem escotismo. Só que para a minha surpresa me encantei com o ideário da esquerda, principalmente a chamada esquerda radical, que pegou em armas, assaltou bancos, sequestrou poderosos em nome de uma sociedade justa, igual, comunista.

O ideário esquerdista dizia que “os fins justificam os meios”, e, sinceramente, quando comecei a escrever no Pasquim e Opinião (dois jornais ultra esquerdistas) aderi a defesa da necessidade urgente de uma revolução popular para instaurar a ditadura do proletariado. Assim como todos os movimentos de esquerda, em especial os radicais, a palavra democracia não era citada. O modelo era, basicamente, o cubano, com fartas doses de maoismo, stalinismo, trotskismo. Gente de direita era tratada como déspota, democratas como viadinhos de butique.

Acreditei que assaltos a bancos eram necessárias “expropriações revolucionárias”, que os sequestros eram uma forma de “capitalizar e socializar o movimento”. Contraditoriamente, apreciava o radicalismo de esquerda e a proposta hippie em sua receita de paz e amor, tratada como alienante. Pela esquerda.

Com o avanço do tempo, além de defender a ditadura do proletariado acreditei que só Estado poderia resolver as mazelas do mundo. Defendi em artigos, discussões, bate bocas, a estatização de tudo. Bancos, supermercados, empresas de ônibus, escolas, clínicas, hospitais. O Estado estatizante seria soberano e o ideário esquerdista era claro ao afirmar que aqueles que roubassem dinheiro público seriam devidamente “justiçados”, ou seja, eliminados, fuzilados, mortos.

Com o passar do tempo, a esquerda foi se deformando. Coincidentemente (?) tornei-me democrata ferrenho e não engoli quando o ideário purista e limpo começou a dar lugar ao “pragmatismo” inventado pelos oportunistas e larápios em geral. Comecei a romper com o esquerdismo quando o novo (?) trabalhismo surgiu à bordo do recriado PTB e do PT. O primeiro nascia fisiológico e até a medula, apesar de alguns bons quadros filiados a ele e o PT, quase imediatamente após a sua criação, foi tomado por parasitas do movimento sindical. O MDB se esfacelou. Tancredo Neves, hoje santinho de cabeceira dos novos esquerdistas, criou em 1980 o famigerado Partido Popular (com anuência do general Figueiredo), um ajuntamento de escroques do naipe de Chagas Freitas, ex-governador do Rio.

Veio a redemocratização, com Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Alguns grandes nomes da esquerda que conheci foram presos por corrupção. Sorte minha que larguei o balaio lá por 1978 quando o jornalismo me levou a ter contato com as mais variadas matizes da escrotidão política. Corria o risco de: 1 – padecer de tanta decepção e desilusão; 2 – tentar explicar a corrupção, ato inexplicável por si só.

Democrata, hoje não sou esquerda, muito menos direita. Leio, vejo, constato gente imbecil e pobre de espírito chamando os outros de “alienados” em nomes de devaneios oportunistas e espúrios que justificam o assalto ao Estado como necessidade. Muita gente acha que o assalto monumental e histórico do PT e seus blue caps (PMDB, PP...) foi ideológico!

Meu dilema. A esquerda que conheci já era uma caixa de gordura totalitária e ladra nos anos 70, disfarçada de reino moralista, ou a falência ética veio depois?


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O planeta da ficção

A nova edição de meu primeiro romance vai muito bem, obrigado. Chama-se “5 e 15 – Rock Romance” e está sendo bem recebido desde o que lancei. O que é? Depois de uma longa, profunda e (por que não?) sofrida pesquisa, comecei a escrever "5 e 15 - Rock Romance". O livro é uma ficção, mas desde que comecei a pensar nele acreditei em Crimson, psiquiatra e cientista obcecado em descobrir uma substância capaz de livrar os seres humanos da dependência química de drogas pesadas. Em especial cocaína e heroína.

Em minha pesquisa, entrevistei grandes psiquiatras, visitei clínicas e muitos fatos narrados no livro aconteceram. O caso do homem que transformou o corte de suas unhas sua linha do tempo, um outro que se achava um pássaro. Algumas situações afetivas também, como o caso uma das mulheres-chave do livro.

Por que o carro, com marca e modelo? Porque tive um e foi nele que viajei para alguns lugares para caçar subsídios para o livro. Livro que é uma homenagem aos amigos, conhecidos e vários ídolos que as drogas pesadas mataram a partir de 1980. Por isso, 1980 é o marco zero de "5 e 15", quando, diz a gíria, começou a "nevar" no Brasil, ou seja, a cocaína imperou.

Liliana de La Torre e André Valle foram as primeiras pessoas a acreditar no livro. Liliana tem a minha eterna gratidão. Através da sua Tech & Mídia ela editou a primeira versão (impressa) em 2006. A nova edição, que foi lançada em versão digital na Amazon (conheça clicando aqui: http://j.mp/lam_5_15  está muito, muito diferente e conta com o suporte de Philippe Mello, sobrinho e afilhado, craque em gestão e ideias atípicas.

Continuo acreditando no sonho de Crimson, na potência da ciência associada ao amor e na honestidade de muitas pessoas. Caso contrário, não investiria 12 anos de vida neste trabalho.


P.S. - Doctor Jimmy existiu. Foi um amigo e saudoso terapeuta que revolucionou todos os conceitos da psicologia, mas não deixou registro de seu método revolucionário.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

De saco cheio

                                       
De saco cheio de pagar pra sofrer
De saco cheio de ter que achar bonitinho bicicletas na calçada
De saco cheio de Trump, Dilma, Temer, Lula, Maduro, Kim Jong-un 
De saco cheio de viver no pior estado do sul/sudeste
De saco cheio de ceder a vez
De saco cheio de fingir que está tudo bem
De saco cheio de poluição, esgoto, miséria
De saco cheio de forças tarefas de qualquer espécie
De saco cheio de dar boa tarde e não ouvir nada
De saco cheio de não ter jipe
De saco cheio de não sumir
De saco cheio de ser gentil
De saco cheio de ouvir reclamações
De saco cheio de direita, esquerda, centro
De saco cheio de vitimologistas
De saco cheio de pilantropia
De saco cheio de “fazeção de média”
De saco cheio de “fazeção de mídia”
De saco cheio de ser povo bonzinho
De saco cheio de “desculpe, o sistema está lento”
De saco cheio de anotar número de protocolo
De saco cheio de dormir mal
De saco cheio de ansiedade
De saco cheio de ter que me explicar
De saco cheio de conceder
De saco cheio de “fazendo um favor”
De saco cheio de estar acima do peso
De saco cheio de estar abaixo do peso
De saco cheio de dar satisfações
De saco cheio de oportunismo étnico e político
De saco cheio de esperteza social
De saco cheio de ser coerente
De saco cheio de não mandar a merda
De saco cheio de pedir desculpas
De saco cheio de ser babaca
De saco cheio de “perdão, atrasei porque o trânsito...”
De saco cheio de deixar de ser livre
De saco cheio de jaulas
De saco cheio de bola e corrente
De saco cheio de Neymar
De saco cheio de futebol, meninas de vólei, olimpíadas de cocô
De saco cheio de mim
De saco cheio da lucidez
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio



Had Enough
The Who

I've had enough of bein' nice
I've had enough of right and wrong
I've had enough of tryin' to love my brother
I've had enough of bein' good
And doin' everything like i'm told I should
If you need a lover, you'd better find another
Life is for the living
Takers never giving
Suspicion takes the place of trust
My love is turning into lust
If you get on the wrong side of me you better run for cover
I've had enough of bein' trodden on
My passive days are gonna be long gone
If you slap one cheek, well, I ain't gonna turn the other
Life is for the living
Takers never giving
Fooling no one but ourselves
Good is dying
Here comes the end
Here comes the end of the world
I'm gettin' sick of this universe
Ain't gonna get better; it's gonna get worse
And the world's gonna sink with the weight of the human race
Hate and fear in every face
I'm gettin' ready and I've packed my case
If you find somewhere better, can you save my place?
Fooling no one but ourselves
Love is dying
Here comes the end
Here comes the end
Here comes the end of the world



terça-feira, 15 de agosto de 2017

Negócios da China

A História conta que dos séculos 16 a 18 um navio ia da Índia para a China em um ano e meio (ida e volta). Como era uma viagem muito perigosa, se num grupo de três naus duas afundassem, ainda assim o negócio dava lucro. Mas, os portugueses da Índia descobriram que podiam fazer viagens muito mais curtas e com lucros muitíssimo maiores. Daí a expressão “Negócios da China”.

Atualmente afirmo com muita tranquilidade que qualquer negócio da China, ou com a China, é a maior roubada para qualquer pessoa ou país em qualquer ponto do planeta. A China pratica um regime escravocrata de trabalho, utilizando mão de obra e material totalmente desqualificados, tecnologia pirateada e retrógrada, enfim, é um esgoto a céu aberto de aberrações éticas.

O problema é que, sempre pensando em se dar bem, muitos brasileiros compram produtos chineses que, por serem extremamente vagabundos, custam muito menos. Eu mesmo já fui vítima dessa lambança. Fui comprar num site de São Paulo um relógio baratíssimo que só chegou mais de dois meses depois. Pior: no site não tem “fale conosco”, nem telefone, nem e-mail. Foi quando descobri, através de leitores no Facebook, que a tal empresa é chinesa.

Você compra produtos chineses? Não falo de artigos que são fabricados na China e nem sabemos disso, mas daqueles que trazem atrás, ou embaixo, o famigerado Made in China. Antro da escravidão, aquela terra de gente que padece consegue colocar aqui dentro produtos até 87% mais baratos porque sua mão de obra é treinada pela chibata, movida pela tortura e a tecnologia utilizada por 100% das empresas é deliberadamente pirata.

Claro que se eu soubesse que a tal empresa onde comprei meu relógio era chinesa não faria o negócio. Por que? Porque comprar da China é contribuir para o escárnio, para a lambança, para tudo o que existe de pior nas relações humanas.

Humanas?






domingo, 13 de agosto de 2017

"Quadrophenia", a melhor ópera rock da história

      O álbum
                                                     O filme
                                      O filme
Quadrophenia, escrito por Pete Townshend, gravado pelo The Who e lançado em 1973 em álbum duplo, é a melhor ópera rock da história. Na década de 1960, Pete Townshend e The Who definiram o conceito de "ópera rock" com Tommy (de 1969), dando um passo à frente com Quadrophenia. Concebida e escrita por Townshend, Quadrophenia acabou se tornando um emblema.

Townshend tornou públicos os seus traumas em Tommy (1969) e Quadrophenia (1973), para mim o melhor disco da história do Who. Acho que para o criador da banda, guitarrista, cantor, compositor, poeta, romancista, teatrólogo, cineasta Peter Dennis Blanford Townshend, londrino de 70 anos, é a obra-prima do Who. Ele faz declarações de amor escancaradas em sua autobiografia.

Álbum duplo conceitual, Quadrophenia foi lançado no mesmo ano de The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd. Mas, o que Townhend escreveu fez com que vários críticos, biógrafos e fãs começassem a chamar o disco de “álbum da minha vida” porque, de ponta a ponta, ele aborda todos os tipos, formas e consequências do hediondo e deformador sentimento de rejeição (e baixa estima), tão ou mais grave e dilacerador quanto a culpa,a inveja, o ciúme.

Em 1979 o diretor Franc Roddam lançou o filme que, evidentemente, contou com a consultoria de Pete Townshend que entregou a direção musical a John Entwistle, baixista do Who (1944-2002). Vacilou. Até a famigerada flauta doce o saudoso baixista (morto de cocaína com vinho em 2002) meteu na trilha sonora que, comprei, ouvi uma única vez e derreti em seguida, transformando o vinil em cinzeiro, como já havia feito com uma série de outros discos, para mim, execráveis.

Não é um filme fácil. Alternativo, tem uma levada intrispectiva, cheiade sub texto, usa uma certa textura mod/punk e, claro, mostra a influência da Nouvelle Vague na direção de Franc Roddam. Em outras palavras, não é um filme comercial.

Felizmente o filme Quadrophenia saiu há 15 dias no Brasil, em DVD, legendado, áudio 5.1. Comprei no site da Americanas (www.americanas.com.br), paguei 20 reais e mais 2 reais de frete. Numa versão mambembe, assisti ao filme Quadrophenia em 1981, mas sem legenda. Até os ingleses tem dificuldade de entender o dialeto mod (grupo de pós-adolescentes que formavam quadrilhas de scooters em Londres no início dos anos 60) mas um dia, para a minha surpresa, o filme passou no Corujão da Rede Globo, tipo três horas da madrugada de uma quinta para sexta-feira, dublado. Há coisas nesse mundo que desisti de entender, como, por exemplo, Quadrophenia exibido na Rede Globo. A dublagem era cômica.

O filme é ambientado em 1963 e conta a história de um garoto chamado Jimmy Cooper (vivido pelo ator Phil Daniels) que, com a sua scooter, vive rodando com os outros colegas mods (expressão de que vem de moderns), filhos de operários, que são molestados e perseguidos pelos rockers, de classe média, montados em potentes motocicletas.

Jimmy briga em casa e é expulso com tapas na cara, chamado de vagabundo. Vai trabalhar, se defende de uma injustiça, manda o chefe tomar no rabo e é demitido. Se apaixona por uma garota, mas durante uma viagem do bando a Brighton, litoral onde rolou de fato uma batalha campal com os rockers, dezenas de presos e feridos, ele flagra a namorada com um cara dando amassos num beco.

E as rejeições vão se acumulando, Jimmy ingerindo cada vez mais doses cavalares de anfetaminas, até perceber que o único sentido de sua vida é o bando, a ideologia mod. Bando este que tinha um líder, rebelde radical que no filme é Ace Face, vivido por Sting, admirado, cultuado por Jimmy Cooper. A lambreta do personagem de Sting é cromada, cheia de espelhos, enfim, “cavalo” de um verdadeiro líder.

Até que um dia, atravessando mais uma crise de angústia, Jimmy vê a lambreta do líder encostada em frente a um hotel. Pior: flagra o próprio líder anarquista trabalhando como carregador de malas (“Bell Boy”), dizendo “sim, senhor”, “sim, senhora”, recebendo gorjetas, enfim, um capacho social. Indignado, Jimmy espera Sting entrar e rouba a lambreta dele. Sem família, sem mulher, sem trabalho, sem grupo de amigos, decide se atirar de uma escarpa britânica. Com a lambreta do personagem de Sting. Mas, há sempre um mas, Townshend deixa em aberto se Jimmy Cooper morreu pois a lambreta cai no abismo vazia.

Os danos das rejeições são profundamente tratados nesse filme que a crítica mundial classificou como “drama”. Aos que perguntam se é uma autobiografia de Townshend, a resposta é não. Aos que perguntam se retrata a adolescência de mais de 80% dos fãs do Who, com certeza a resposta é sim.

Trilha sonora:

The Who - 

     Overture - I Am the Sea - The Who
  1. The Who - The Real Me
  2. The Who - I'm One
  3. The Who - 5:15
  4. The Who - Love Reign O'Er Me
  5. The Who - Bell Boy
  6. The Who - I've Had Enough
  7. The Who - Helpless Dancer
  8. The Who - Doctor Jimmy
  9. High Numbers - Zoot Suit
  10. Cross Section - Hi Heel Sneakers
  11. The Who - Get Out and Stay Out
  12. The Who - Four Faces
  13. The Who - Joker James
  14. The Who - The Punk and the Godfather
  15. James Brown - Night Train
  16. Kingsmen - Louie Louie
  17. Booker T. & the MG's - Green Onions
  18. The Cascades - Rhythm of the Rain
  19. The Chiffons - He's So Fine
  20. The Ronettes - Be My Baby
  21. The Crystals - Da Doo Ron Ron
  22. High Numbers - I'm The Face



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Bonzinho é o cacete!

Em seu “Diário de Viagem”, o filósofo Albert Camus conta que quando esteve no Rio, em 1949, ciceroneado pelo grande Abdias Nascimento, pediu para conhecer um centro de umbanda. Era agosto, um agosto mais para verão do que para inverno. Abdias providenciou um táxi e foram, ele e Camus, em direção da Baixada Fluminense onde ficava o centro. Só que, no caminho, nas imediações da Praça da Bandeira, um caminhão atropelou e matou um homem. Os dois viram tudo.

Antes da ambulância, da polícia e dos bombeiros, um Camus boquiaberto viu chegar um grupo de pessoas que levantava o rosto do atropelado, para...ver. Horrorizado ele conta ainda que em seguida, “surgidos do nada”, pedaços de jornal e velas. O corpo foi coberto, as velas acesas e as pessoas ficaram em volta. De vez em quando um ia lá e levantava o jornal para ver a cara do morto. Camus não entendeu nada e Abdias não quis dizer que tratava-se, mais uma vez, de uma manifestação da nossa morbidez.

A espécie humana é perversa, uma falha que veio surfando em nosso DNA. A audiência cavalar de programas mundo cão, em todo o mundo, é uma prova disso, mas aqui no Brasil o processo é mais descarado. Simulando horror, as pessoas se amontoam em frente a TV para ver como foi feito o buraco onde madrasta enterrou a criança viva. Chegam mais perto da TV para verem as imagens da privada  atingindo e matando o torcedor no nordeste e fingem que se envergonham ao saberem que uma inocente, acusada de sequestradora, foi linchada por engano no Guarujá. 

"Repórteres" passaram dias perguntado aos habitantes de Chapecó "como estavam se sentindo" diante da queda do avião com o time. Adivinhem como as pessoas estavam se sentindo? Em frente a câmera, balbuciam alguma coisa e choram, para orgasmo da câmera que dá um close para mostrar as lágrimas, o horror. A cena foi ao ar num viveiro de zumbis chamado “Profissão Repórter”.

A audiência. Insaciável pega o controle remoto e passam a noite catando sangue. A ponto do autor de uma novela das nove ter inserido violência na trama para subir a audiência. Me disseram que a novela das nove, “Força do Querer”, ensina criminalidade.

Nos anos 1970 a atriz Kate Lyra (norte-americana, na época casada com o compositor e cantor Carlos Lyra) tinha um quadro de humor na TV cujo bordão, debochado, era “brasileiro é tão bonzinho...”, como se dissesse "bonzinho é o cacete!




quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Netflix

O Estado do Rio elegeu (empoderou, como dizem os “muderninhos” politicamente corretos) uma constelação de medíocres (e safados) e isso aqui virou guerra civil. Agora não sabemos, sequer, se vamos conseguir sair de casa, o que dirá voltar. Os governantes assaltaram os cofres públicos até o talo e decretaram um oportunista “estado de calamidade pública”.

Sicário, o governador do RJ pediu tapa na cara quando alugou jatos de uma empresa de táxi aéreo por R$ 2,5 milhões por mês. Isso mesmo! Com gente morrendo de fome sem receber salário. Saiu nos jornais de hoje.

Recentemente um americano foi assaltado em Ipanema. O bandido levou tudo e, não satisfeito, deu quatro tiros de pistola nove milímetros na vítima. Não acertou nenhum e ainda levou uma surra do americano. Na delegacia a vítima voltou a ver o bandido, teve um ataque de fúria e, pasme, foi preso. Sim, no Rio o turista leva quatro tiros e acaba em cana. Só rindo. O americano volta amanhã para Nova Iorque jurando nunca mais pisar aqui. Culpa dele? Não sabia que a “cidade maravilhosa” caminha para ser um novo Afeganistão, com todo o respeito que tenho pelo Afeganistão?

No rastro do emporcalhamento político administrativo do Rio, muitas empresas alegam “é a crise...” (sempre ela) e investem no que há de pior (e mais barato) em mão de obra desqualificada, o que garante uma boa alavancada nos lucros.

É quando a vítima, já farto do estelionato político, resolve espairecer, quem sabe pegar um cineminha. Tudo bem. Entra no carro (tem que ser um modelo popular para não atrair o verdadeiro governante, o bandido), paga quase 15 reais de estacionamento no cinema (se deixar na rua perde o carro, ou metem uma arma na cabeça dele) e compra o ingresso (R$ 31,00), apesar da sala de espera estar quente porque parece que o ar condicionado não está funcionando direito (mentira, é economia de luz).

Próxima etapa: comprar um saco médio de pipoca e uma garrafinha de água mineral pequena: R$ 15,00. Entra na fila, espera, espera, espera, chega a sua vez. Pega a pipoca, a água e caminha para a entrada do cinema onde um funcionário diz que o sistema de projeção pifou.

Podiam ter avisado antes? Sim. Mas sabem como é a incompetência. Antes de ir para a roubada a vítima tentava falar com o cinema por telefone, mas ninguém atendia. Podiam ter avisado na bilheteria? Podiam. Ou, quem sabe, lá fora no estacionamento para a vítima não morrer em R$ 12,00. Afinal, vivemos um tempo de fartura tecnológica. O sujeito peida aqui e sentem o fedor em Bangladesh.

O pessoal do estacionamento explica (?) que devido aos assaltos agora os clientes tem que pagar antes de entrar e não na saída. Consolo: um rabisco no ingresso autorizando a entrada em outro dia, quando o sistema provavelmente voltará funcionar. Ou, então, pegar o dinheiro de volta, como determina o Código de Defesa do Consumidor.

A vítima chega em casa, entra na página do cinema no Facebook e reclama. Horas depois uma pessoa sem nome que se identifica apenas com o modernoso e pomposo título de “equipe de comunicação de mídias sociais” diz que “vamos apurar o ocorrido para lhe responder adequadamente”. Ninguém assina. E ninguém diz nada um dia depois. Meses depois. Nunca mais.

Dia seguinte. Apesar de ter percebido que entrou em festa de vara fantasiada de bunda a insistente vítima retorna ao cinema com o ingresso rabiscado. Fila na entrada da sala. Quando chega a sua vez, o porteiro (na verdade peão do gado bípede), mal humorado diz “tem que pegar a autorização na bilheteria” e desconsidera o rabisco. A vítima caminha até a bilheteria, consegue validar o ingresso e finalmente entra no cinema...onde está sente um pouco de calor, provavelmente porque o ar condicionado está com problemas (mentira, é economia de luz – 2 -.) Parece até prefeitura.

Por isso é melhor ficar em casa e assistir Netflix, ou ir na casa de amigos. Para começar, não há estresse. Depois, a economia. Nessa odisseia descrita acima a vítima desembolsou, no total: consumo de saúde – imensurável; R$ 31,00 do ingresso, mais R$ 12,00 do estacionamento, mais R$ 15,00 da pipoca, mais R$7,00 da gasolina. Total? R$ 65,00.

Um mês de Netflix (isso mesmo, um mês!) custa em torno de R$ 28,00 com um invejável cardápio de filmes e séries, sem estacionamento, aporrinhação, gente mal humorada, ar condicionado “pifado”, etc. Fora o Netflix, o sistema de aluguel de filmes do You Tube é bom e está disponível para TVs com aceso a internet. Lá você assiste, por exemplo “O Regresso” pagando R$ 10,00, por 24 horas, “Elvis & Nixon”, R$ 14,00, enfim, um gigantesco catálogo de filmes.

Não é só ir ao cinema que virou rali. Em qualquer grande casa de shows no Rio paga-se em torno de R$ 100,00 para assistir pelo telão, já que lá de trás não se enxerga (e ouve) nada. Mas quem quiser desembolsar R$ 250,00 ou R$ 300,00 assiste lá na frente, onde muita gente fica batendo papo de costas para o artista no palco e teclando no whatsapp. Fora estacionamento, gasolina, provável congestionamento.

É por isso tudo que tirar as pessoas de casa em tempos de “molambalização” dos caríssimos serviços está cada vez mais difícil. E, diz a lenda, a tendência e piorar.