segunda-feira, 27 de julho de 2015

O que seu gosto musical diz sobre você

Artigo de Javier Sampedro – jornal El País
Há algo mais pessoal que o seu gosto musical? Essas canções que alcançam sua alma ou o deixam excitado, que alcançam o centro geométrico da sua emoção e alteram, sem intermediários, seu estado de ânimo não são o produto mais destilado da sua eleição consciente? Bem, em uma única palavra, não.

Os psicólogos experimentais de Cambridge demonstraram que os nossos gostos musicais são bastante previsíveis. Basta conhecer o estilo de pensamento de uma pessoa – se tende a simpatizar ou a sistematizar – para adivinhar qual música ela gosta. E os detalhes são muito interessantes, continue lendo.

A questão não é se alguém gosta de jazz, do tango, de música clássica, de calipso, de rock ou de pop. Essas são questões não apenas mais abrangentes, mas ultrapassadas: o tipo de pergunta cuja resposta não serve para nada. A questão é muito mais sutil e interessante: se dentro do jazz, você prefere Billie Holiday ou John Coltrane; se como ouvinte de música clássica, prefere Mozart ou Bartok; se ao escutar rock, ouve Beatles ou Rolling Stones, e quais canções dos Beatles ou dos Stones. A questão mora nos detalhes, como sempre.

David Greenberg e seus colegas da Universidade de Cambridge mostraram que a música que uma pessoa gosta pode ser facilmente deduzida a partir do seu estilo de pensamento, um parâmetro psicológico que divide os humanos em duas grandes categorias: os simpatizantes, que baseiam seu comportamento em avaliar e responder às emoções dos outros (e, portanto, são mais Mozart); e os sistematizadores, que se dedicam mais a descobrir as pautas e regularidades que o mundo esconde (e ficam com Bartok). Essa teoria deve-se ao psicólogo de Cambridge, Simon Baron-Choen, que assina o trabalho como segundo autor.

Um número cada vez maior de investigações psicológicas e sociológicas utilizam as redes sociais como matéria prima, e a de Greenberg e seus colegas é a última delas. Recrutaram 4.000 participantes pelo aplicativo myPersonality do Facebook, que pede aos voluntários que se submetam a uma série de perguntas psicológicas. 

Alguns meses depois, os cientistas pedem a esses mesmos voluntários escutarem 50 músicas e classificá-las por notas. As canções pertencem a 26 gêneros e subgêneros musicais, para garantir que o gênero não importa e que são as preferências dentro de cada gênero que serão levadas em conta.

Os resultados são estatisticamente nítidos: os simpatizantes preferem o rythm & blues, o rock suave – ninguém compôs baladas mais profundas que as feras do heavy metal -, a canção melódica e os cantores. Os sistematizadores preferem o rock pesado, o punk, o jazz de vanguarda e outras construções melódicas complexas e sofisticadas, o tipo de música que nunca se ouve em um elevador. Com certeza o leitor já sabe em qual dos grupos está situado.

O cérebro e primeiro autor do trabalho, David Greenberg, não apenas é um doutorando em psicologia, mas também formou-se em saxofone em Nova York. "Seria possível", afirma ao EL PAÍS, "olhar os likes que uma pessoa dá no Facebook, ou sua lista de músicas no iTunes, e prever o seu estilo cognitivo, o estilo de pensamento". Não cabe a menor dúvida de que isso será interessante aos empresários do setor. Que, certamente, obterão essa informação grátis de Greenberg e PLoS, enquanto eles não liberarão nem metade.


Um dos parâmetros utilizados pelos cientistas de Cambridge é a "profundidade cerebral" de uma música. O que é isso? "Baseia-se na complexidade estrutural que só é escutada em gêneros de vanguarda", responde o psicólogo e músico de Jazz. "A estrutura harmônica de Giant Steps [o auge do período hard bop de John Coltrane] cumpre sem dúvidas essas características. Mas a música de Coltrane é tão interessante porque não tem apenas esse nível de profundidade cerebral, mas também uma grande profundidade emocional".

O psicólogo Greenberg jamais teria realizado essa experimentação não fosse pelo músico Greenberg. "Enquanto estudava jazz em Nova York, eu me dei conta que alguns dos meus professores ensinavam com um foco simpatizante e outros com uma estratégia mais sistematizadora. Isso me deu a pista de que os estilos cognitivos poderiam explicar as diferenças individuais com as quais as pessoas interagem com a música".

Se não gosta de se expor em público, melhor não colocar músicas em festas.

domingo, 26 de julho de 2015

Música para mim não se resume a rock

Desde que comecei a escrever no Facebook e Twitter que estou gostando muito da nova rádio Cult Brasil, que fica em http://www.radiocultbrasil.com.br/ e só toca música brasileira, algumas pessoas me enviam e-mails surpresas dizendo que acham que eu só gosto de rock.
Claro que sou roqueiro desde que nasci, mas modéstia à parte tenho uma invejável coleção de grandes álbuns de Egberto Gismonti, Badi Assad, Alceu Valença, Belchior, praticamente toda a obra de Debussy à bordo de Nelson Freire, grandes nomes da bossa nova, enfim, é muita coisa.
Meu gosto musical, literário, cinematográfico, cultural de uma maneira geral, nunca foi unicista. Aliás, minha vida está longe de ser unicista. Inclusive, nos anos 1970 frequentei toda a sexta-feira a gafieira Elite, mais por causa das companhias femininas do que pela música, assim como já toquei no Olodum de Salvador, adoro o maracatu, e por aí vai. Meu gosto é movido pela curiosidade. Curiosidade que, no momento, está voltada para a música do Mali, África, origem do blues, do R&B (na minha opinião) e de outras vertentes que amo já que sem a presença negra a música se tornaria um fastio insuportável. Viva a batida! Viva o beat!
Agora, não me convidem para ouvir sambinha, vulgo “samba de branco”. Não, pára com isso por favor. Não vim ao mundo fazer média e sim mídia e o sambinha está fora da minha área de cobertura. Não vou citar compositores e interpretes porque uma nova semana está começando e não quero meter o pé nela brigando. E como o gosto é um critério radicalmente subjetivo, sempre gera pancadaria. Sou essencialmente roqueiro mas ouço, sim, a Radio Cult Brasil quando está me agradando. Quando não está, não ouço. Nenhuma emissora de rádio, de qualquer gênero musical, agrada 100% do tempo. Impossível!
Meu negócio é Música, assim mesmo com M maiúsculo. Aliás, esse papo lembra uma carta aberta que escrevi para o L.G. Bayão, tempos atrás, aqui na Coluna. Bayão é meu amigo, roteirista e escritor. É dele o roteiro do filme “A Onda Maldita”, ficção baseada em meu livro, que começa a ser feito no início do ano que vem.
Bayão,
Sabe o Alex Mariano, querido amigo morto pela leniência do Estado? Alex era o rei dos apelidos. Conheço umas 10, 20 pessoas que foram apelidadas por ele e nunca mais se livraram dos codinomes.
Meu amigo desde a adolescência, ele conheceu meu “braço armado” quando foi fazer comigo a Rádio Fluminense FM, em 1981. Bayão, ele me apelidou de Luiz Antonio Mulla (com dois L) por causa de meus coices que ele dizia serem “antológicos” e, também, de “imperador Bokassa”, referência a Jean-Bédel Bokassa, hediondo ditador africano que de meados dos anos 1970 até 1985 cometeu genocídio e até canibalismo quando esteve no poder.
Quando Alex me chamou de “Bokassa” pela primeira vez (eu quase tinha saído na porrada com um figurão da rádio momentos antes), dei um coice no meu querido amigo. “Alex, Bokassa é o cacete! Luiz Antonio Mulla pode, mas Bokassa nem a pau!”. Ele não perdeu a pose: “e amado chefinho, pode?” Foi o apelido que pegou.
Bayão, sempre lembro do Alex porque ainda não pude chorar plenamente a sua morte vil, canalha, covarde como deve ser chorada. Ele me dizia, sempre debochadamente, “amado chefinho, quando você para de ouvir música entra em TPM e sobra pra gente”. Tinha razão, o grande Alex.
Anos atrás me afastei da música e quando percebi o mar tinha virado, ventos de sudoeste começaram a soprar forte e eu me vi diante de ondas de 20 metros de alturas, como aquelas de Maverick, Califórnia, com uma prancha pequena. Como no filme “Tudo por um Sonho”.
Não são as maiores ondas que tive que encarar, mas me deram trabalho. Surfei-as hoje, Bayão. Sabe como? Com o desasossega vizinhos “Quadrophenia”, do The Who, que ouvi no computador turbinado por amplificação Edifier que meu irmão e meu sobrinho me deram de presente em 2013.
A medida em que a guitarra lancinante de Pete Townshend, a bateria extraterrena de Keith Moon, o baixo desesperadamente genial de John Entwistle iam engolindo os 17 andares de meu prédio, fui acalmando, acalmando, acalmando e sentei para te escrever essa carta aberta. Por que? Não sei, Bayão.
Fato é que deixei de ser Luiz Antonio Mulla em 2008, quando, sem saber, fui trabalhar num escroque calabouço corporativo que cismou de me domar. E acabou domando, o que me fez muitíssimo mal. Nem os 12 anos e varada de Governo em Niterói, onde fui presidente de uma fundação de arte e depois de uma empresa de turismo, eu aliviei nos coices. Ao contrário. Aí que eu tive que mandar chumbo mesmo porque política não é para babaca. Se você não chuta antes acaba linchado.
Bayão, prometo as zaralhadas de leitores aqui deste blog, mas ESPECIALMENTE A VOCÊ (em maiúsculas) que NÃO VOU MAIS ABANDONAR A MINHA MÚSICA, que vai de rock and roll existencial até bossa nova da região de meu amigo e padrinho de estúdio Roberto Menescal, via Egberto Gismonti, Badi Assad, André Geraissati e similares.
Continue dando coices aí que eu respondo daqui. Sem coice não dá, meu amigo. Uma vez, um déspota me enviou um corvo-correio (estafeta dele) com a mensagem “de concessão em concessão viramos Conceição”. O canalha tinha razão.

Abraços do LAM, com M de Mulla. Sempre!

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Muito obrigado pelo convite, mas não irei ao Rock in Rio


Me ligaram convidando para ir ao Rock in Rio. Declinei em bom português. Disse que escreveria as razões em minha Coluna, essa aqui. Logo, se promessa é dívida, estou zerando agora.

Depois da edição de 1985 e a do Maracanã, o Rock in Rio virou uma marca. Uma marca rentável, muito rentável, como Nissan, Citybank, HP, Apple, Caporal Amarelinho. Acho ótimo que nesse momento, quando o Brasil, de novo, cai na lona e o juiz já contou até oito, alguma coisa dê certo por aqui.

Abre aspas – toda a vez que o trabalhismo toma o poder, o Brasil cai no lodo. Getúlio foi aquilo que se viu: ditadura, estado novo, corrupção. Depois, Jango que entregou a pátria a outros párias da ditadura. E agora é isso que está aí. Fecha aspas”.

Ao misturar axé music com tirolesa, roda gigante e até alguns cavaquinhos, o Rock in Rio se assume: não é rock nem é Rio. É uma gigantesca quermesse eletrônica, aprendiz de Disneylandia que um dia, quem sabe, vai entrar no mapa das diversões interplanetárias. Em Las Vegas, o Rock quebrou a cara. E ao meter Ivete Gostosa e Baiana Sangalo na proa, quem quebrou a cara foi o Rio. Chamar o que não é rock de rock na terra onde o rock nasceu é botar a bunda na janela em dia de temporal de falos.

Se eu tivesse uma filha pré-adolescente, de preferência daquelas que falam sem parar, questionam, tocam rebu e por isso a imbecilidade tupiniquim batizou de “aborrecente” eu iria, sim, ao Rock in Rio. Para aprender com ela a perder o medo de altura e, em pânico, andar na tal roda gigante de 40 metros de altura. É isso mesmo? Quarenta metros?

E atravessar a frente do palco Mundo voando na tirolesa (desde que minha filha tomasse conta de mim), encher a cara de Big Mac, quem sabe brincar na lama com ela e, pode até ser, olhar para os palcos de pagode, axé, david guetta, dar umas gargalhadas. Ela iria me perguntar o que é Steve Vai eu responderia que “é um guitarrista bom pra cacete, filha, que se perdeu na Linha Amarela, filha, e veio baixar aqui na quermesse”.

Mas não tenho filha pré-adolescente e muito menos saco para encarar roda gigante + tirolesa + axé + quilômetros de sol no lombo, sei lá mais o que. Mais: não me convidem para linchar o Rock in Rio, falar mal, dizer que o rock está senso usurpado e tal. Ora, minha nega, rock and roll não está lá mesmo, e daí? Se hoje eu quiser rock and roll, vou aos bares, ao Circo Voador, o Festi Valda na Fundição, ou ligo a Radio Cult FM Ponto Com, ou o Canal Bis na TV, ou vou a São Paulo ou, radicalizando, carimbo o passaporte e vôo para Nova Iorque. Não vou pescar garoupa em mares de tubarão. Querer ouvir rock no Rock in Rio é querer se frustrar e, pior, torrar uma grana em vão.

Nesses tempos de quebradeira econômica, baixo astral coletivo, desejo sucesso ao Rock in Rio e a sua clara, nítida, cristalina proposta de oferecer diversão como um parque temático. Se existe parque de dinossauros, parque de ursos, parque de Mickey, existe um parque de rock, chamado Rock in Rio. Que poderia se chamar "Vulva Heterodoxa”, “Sardinha Alada”, “Sua Mãe. Que um dia sim, tocou rock autêntico, lááááááááááá em 1985, mas era outra história, outro mundo, outro país, outro você, outro eu.com.br.






Paul McCartney: “Lançamos Sgt. Pepper´s na sexta e domingo Jimi Hendrix tocou o tema no Saville Theatre em Londres; os Beatles chegaram a um ponto em que implodiram - todos tinham dinheiro e fama e, de vez em quando, era inevitável que nos irritássemos uns com os outros.”


                                                                                 





A conversa franca de Paul McCartney com Anthony Decurtis, da Rolling Stone americana, quatro anos atrás, toca em temas que ele pouco ou nunca comentou em profundidade como o fim do grupo, a amizade retomada com Lennon, a saudade de Harrison. Leia:
Como foi o "verão do Amor" (1967) para você?
Legal pra caramba. Tínhamos acabado de decidir que suspenderíamos as turnês porque já não estava mais valendo muito a pena. Parecia que não estávamos progredindo, o público continuava berrando, mas a gente se encheu daquilo. Tínhamos a ideia de fazer um disco que sairia em turnê por nós.
Isso veio de uma história que tínhamos lido a respeito do Cadillac de ouro do Elvis fazendo turnê. Achamos que era uma ideia maravilhosa: ele não sai em turnê, só manda o Cadillac. Fantástico! Então, pensamos: "Vamos despachar um disco". Passamos mais tempo em estúdio e o resultado foi Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). Então, foi maravilhoso. Estávamos amadurecendo? Não sei.
Olhando em retrospecto agora, éramos praticamente crianças, apesar de nos sentirmos muito adultos. Tanta coisa tinha acontecido com tanta rapidez desde a viagem dos Beatles para os Estados Unidos em 1964. Em essência, aqueles três anos foram a diferença entre "I Want to Hold Your Hand" e "Sgt. Pepper's." Os tempos estavam mudando, como senhor Dylan disse. Só estávamos seguindo nossos instintos, mas havia um grande arroubo de energia, as ideias vinham rápidas e consistentes.
Todos os tipos de ideias novas - artísticas, políticas, musicais. Começamos a escrever coisas que eram diferentes porque nossas conversas, nossos pensamentos e nossos sentimentos eram diferentes. Estávamos passando muito mais tempo longe da estrada, com outros artistas, e isso nos permitiu investigar outras coisas.
Tínhamos muitos amigos no mundo da música e no mundo da arte, e havia uma grande fertilização cruzada. Foi uma época ótima para experimentar coisas e tudo isso penetrou na nossa música e no nosso estilo de vida.
Eu me lembro do impacto de Sgt. Pepper's como algo instantâneo e onipresente, tocando em toda casa noturna, toda loja de roupa, toda loja de discos.
Você fazia ideia de que teria esse tipo de efeito?
Foi ótimo, para falar a verdade. Como tínhamos parado de excursionar, a mídia começava a sentir que as coisas estavam calmas demais, o que criou um vácuo, de modo que puderam falar mal de nós. Diziam: "Ah, a fonte secou". Mas nós sabíamos que não tinha secado. Sabíamos o que estávamos fazendo e sabíamos que nossa fonte estava longe de secar.
Na verdade, o oposto estava acontecendo - vivíamos uma enorme explosão de forças criativas. Nós pressentimos isso. Realmente não comentamos o assunto com muita gente. Tocávamos uma demo aqui, outra ali [para os amigos] e tal, mas o mundo de maneira geral não sabia de nada.
O que alguns críticos comentavam era "ah, eles estão acabados". Enquanto isso, estávamos lá trabalhando com alegria, como os Sete Anões - "Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho!" [risos]. Estávamos nos divertindo muito, obviamente, montando essa coisa.
Daí, quando saiu, foi fantástico. Naquela época, costumávamos lançar [álbuns] na sexta-feira, e aquele fim de semana foi uma coisa. Eu me lembro de ter recebido telegramas que diziam coisas como "vida longa a Sgt. Pepper's!". Esse era o sentimento geral, e era maravilhoso.
Naquele domingo Jimi Hendrix tocaria no Saville Theatre no West End de Londres, e ele abriu o show com o tema de Sgt. Pepper's. Cara, o disco estava mesmo em todo lugar! E é claro que nós só ficamos surfando naquela onda artística. Foi bem bacana exercer tanta influência assim.
Como eu disse, era verão, e o sol brilhava e lá estávamos todos nós, no maior astral [risos]! Eu me sinto muito privilegiado por ter vivido aquilo, em primeiro lugar e, em segundo, por ter sido o epicentro dos acontecimentos.
Deve ter sido uma sensação muito estranha - passar por mudanças enormes e, simultaneamente, gerar mudanças similares para milhões de outras pessoas.
Foi sobrenatural. Nós tínhamos nos acostumado com uma parte disso simplesmente por sermos os Beatles. Até "I Want to Hold Your Hand" tinha deixado as pessoas loucas. Mas em 67 a coisa passava para outro nível. Estávamos entrando no coração e na mente de todos.
Parecia muito que Sgt. Pepper's fazia parte do sentimento daquela época em que, de algum modo, tudo iria se transformar, que nada jamais voltaria a ser como antes.
É engraçado, conheço muita gente que, depois dos anos 60, teve uma sensação de decepção que nunca passou. Eu pessoalmente achava que, ao passo que tudo estava mudando, não necessariamente significava que tudo mudaria. Nós tínhamos longas discussões a respeito de como um dia as pessoas da nossa geração se tornariam primeiros-ministros e seria bem sobrenatural [para eles] o fato de terem sido afetados por esse período.
Mas, ao mesmo tempo, éramos realistas, e pensávamos "é, mas vão continuar sendo políticos". Dava para saber que tudo que estava acontecendo no mundo mudaria a ordem das coisas em alguns aspectos, mas não em todos. E isso está provado pelos nossos líderes atuais. Eles continuam presos aos anos 40 ou algo assim.
Houve algum acontecimento específico que fez com que você achasse que os anos 60 não cumpririam suas promessas?
Suponho que preciso considerar o rompimento dos Beatles como o momento mais sombrio. Os Beatles chegaram a um ponto em que implodiram - todos tinham dinheiro e fama e, de vez em quando, era inevitável que nos irritássemos uns com os outros.
Eu tinha conduzido a dança um pouco em Sgt. Pepper's. Para mim, o título e a ideia toda foi inspirada pela época e pela fertilização cruzada com os outros artistas. Queria que fosse algo do tipo "uau, cada um de nós tem sua lista de heróis [na capa] e vamos assumir estes alter egos. Seremos pessoas novas fazendo este disco, e podemos mais ou menos viver nestes corpos novos e fazer um álbum como se fôssemos outra banda". Aquilo foi libertador.
Mas, depois disso, não dava para sentir que era possível seguir em frente como aquela outra banda. Você inevitavelmente voltava à terra, fazia parte dos Beatles.
E foi aí que os problemas começaram...
Foi quando começamos a discutir assuntos comerciais, principalmente com o advento de Allen Klein - ou "um certo empresário norte-americano", ou seja lá como somos obrigados a nos referir a ele. Deixemos para o departamento jurídico resolver. As conversas passaram a ser assim: "Ah, que merda, vamos ter mesmo que pensar sobre isso agora ou perderemos tudo?". E isso causou um racha tremendo.
Você acabou processando os outros Beatles.
Foi o pior momento da minha vida, quando me informaram que não poderia me opor a esse tal de Klein, esse "suposto empresário norte-americano". Como ele não era uma das partes de nenhum dos nossos acordos, precisei brigar contra os outros três caras. Foi uma situação com a qual me debati durante meses. Ou era "não, não brigue com esses caras e perca tudo para todo o sempre" ou "brigue com esses caras e salve tudo". Foi um dilema. No final, pensei "acho que eles não sabem o que estão fazendo, estão cometendo um erro pavoroso". Então eu, de fato, briguei no Tribunal Superior e venci, por sorte.
Isso criou um estigma terrível para mim, como sabia que criaria - não tinha entrado naquilo de bobo. Sabia qual seria o preço. Mas achei que, no fim, as pessoas descobririam que tinha razão. E foi gratificante quando todos os caras, no final, piscaram para mim e disseram: "Foi bom você ter feito aquilo". Até Yoko [Ono] reconheceu isso. Mas foi uma coisa horrorosa de se viver. Foi quando o sonho se desfez para mim.
Houve um ponto em que você sentiu que, apesar da dissolução da banda, seria capaz de seguir em frente e continuar a se divertir?
Fazer o álbum McCartney (1970) foi bom para mim nesse aspecto, porque realmente retornei às raízes. Eu me senti bem, e isso é bom. Até hoje, as pessoas reparam naquele álbum. Com freqüência acontece com os artistas e os músicos - eu ia dizer especialmente, mas acho que está mais para igualmente - de o trabalho ser aquilo que faz você se compreender.
A música é especialmente boa para isso, é uma boa terapia. Estava passando pela coisa terrível de perder a amizade daqueles meus camaradas da vida toda, e para quê? Bom, a mim parecia que o motivo era tentar salvar a vida deles. Aliás, não existiria uma [gravadora] Apple para estar em litígio com a Apple de Steve Jobs - e não existe mesmo, falando nisso, já foi tudo resolvido -, mas não existiria uma Apple Records hoje. Tudo teria desaparecido; a coisa toda simplesmente não existiria.
Não haveria nenhum show em Las Vegas, não haveria nenhuma destas coisas que agora estão aí tão gloriosas se não tivesse tomado aquela atitude. Mas foi uma decisão dura de verdade. Foi uma daquelas coisas que exigem terapia depois, e para mim, voltar à música foi essa terapia. E, é claro, com a enorme ajuda de Linda. Ela foi uma das grandes responsáveis por me fazer voltar à vida e seguir em frente. Ela era um bastão de força naquele momento. Isso e produzir música fizeram com que atravessasse aquele período.
Você, George e Ringo puderam desfrutar os ressurgimentos dos Beatles. John, é claro, morreu antes de boa parte disso acontecer e George também se foi.
Esta é a pior parte de ficar adulto. Você perde amigos, é inevitável. Não é exatamente uma surpresa, mas é terrível. É muito triste. Conhecia John intimamente há tanto tempo. Sempre me admiro com o fato de eu ter sido o cara que se sentava com John para escrever todas aquelas coisas. Éramos só ele e eu em uma sala e isso era bem especial. Então, perdê-lo foi horrível.
E foi especialmente triste porque tínhamos superado a desavença dos Beatles. Apesar de ele estar morando em Nova York, nós conversávamos com bastante regularidade. Simplesmente conversávamos sobre coisas cotidianas - sobre o filho dele, Sean, e sobre a vida em geral, sobre os pães que ele assava. Trocávamos receitas de pão, era ótimo. Então, simplesmente foi uma tragédia horrível ele ter sido arrancado daquele jeito.
No caso de George, foi igualmente trágico. Eram meninos tão lindos, sabe? [Ele faz uma pausa, e sua voz treme] George era simplesmente um sujeito ótimo. Ele era um garotinho que eu conheci em Speke, Liverpool, só um garotinho que entrou no meu ônibus. Eu subi no ponto anterior ao dele, ele entrou e nós começamos a conversar sobre guitarras e rock'n'roll. Depois, quando estávamos procurando um guitarrista, e eu mencionei o nome dele a John, George se juntou ao grupo. E daí passou a ser apenas o sábio George. Ele era um sujeito lindo que não aguentava gente burra. Era uma alma muito linda. Nem me deixe começar, cara. É um horror ter perdido aqueles caras. Mas ser adulto é uma verdade terrível.
Você tem ideia do que continua a tocar as pessoas com os Beatles depois de todos esses anos?
Acho que, basicamente, é a magia. Os Beatles eram mágicos. Para mim, a vida é um campo de energia, um punhado de moléculas. E essas moléculas específicas se formaram para que aqueles quatro caras virassem os Beatles e fizessem todo aquele trabalho. Preciso pensar que foi algo metafísico. Uma coisa que deve ser considerada mágica. Estou sendo muito extravagante?
Se você quiser ser prático, acho que as músicas eram muito bem estruturadas. Quando as canto atualmente em shows, penso "isso aí é bom, é sim. Que verso bom. Ah, entendi!". É uma redescoberta. Você simplesmente lembra "ah, foi por isso que fiz assim". Então, elas também têm uma força física, é trabalho bem-feito.
Você teve papel importantíssimo depois dos ataques de 11 de setembro, organizando o Concerto para a Cidade de Nova York e ajudando a reconstruir a confiança da cidade. Mas muita coisa aconteceu para complicar nossa noção do que houve naquele dia. Quando você pensa em 11 de setembro hoje, o que lhe vem à mente?
Bom, tenho minhas lembranças pessoais de estar no [aeroporto de Nova York] JFK e de ver a fumaça das torres gêmeas. O aeroporto fechou, nosso voo foi cancelado, fomos para Long Island, ouvimos o noticiário e assistimos a TV. E depois pensei em fazer meu próprio concerto, mas tudo culminou no Concerto para Nova York, que foi ótimo, porque muita gente queria fazer alguma coisa.
Foi ótimo fazer parte daquilo - ajudar os norte-americanos em particular, mas o mundo de maneira geral, a colocar seus sentimentos em algum lugar. A oportunidade perdida foi que as pessoas ficaram com um enorme sentimento de solidariedade em relação ao povo americano, e as ações políticas que se seguiram a 11 de setembro desperdiçaram a oportunidade. Foi como se alguém no playground tivesse apanhado, mas não sabia quem tinha batido, e por isso resolveu descontar na pessoa mais próxima - e isso se transformou no Iraque. A agenda política é a culpada.
Olhando para a frente, quais são as principais questões que se colocam agora?
Fazer algum avanço em direção à paz mundial. Seria ótimo se as pessoas com diferenças no mundo hoje percebessem que não existem diferenças - é um campo de energia. Precisamos da mesma velha coisa de sempre: paz e amor. Não sendo frívolo, mas esse continua sendo o grande objetivo. Bom, e vocês aí precisam de um novo líder [risos]! Quer dizer, isso ajudaria.
Nem brinque...
O ambiente é uma realidade. Algumas pessoas me dizem "há tantas causas, não sei quais apoiar". Minas terrestres, os maus-tratos com animais, só para mencionar duas pelas quais me interesso. É como se considerassem este o problema: "Qual causa apoiar?". Eu respondo: "Não entre em pânico, apenas escolha uma que o agrade e vá em frente. Todas estão conectadas". Mas eu sou otimista, tem muita gente bacana por aí. No momento, temos montículos de terra. E tudo bem. Isso é bom. Mas precisamos que se transformem em uma montanha. Tem muita gente inteligente por aí, mas, infelizmente, também tem um monte de imbecis. Mas o meu otimismo me leva a torcer para que os inteligentes construam a montanha.
E qual você gostaria que fosse seu legado pessoal?
Sempre que me perguntavam como eu gostaria de ser lembrado, respondia "com um sorriso". Mas gostaria que as pessoas entendessem o que eu fiz e pensassem que há uma enorme força naquilo. Gostaria que as pessoas pensassem que uma parte daquilo chega a ser demoníaco de tão forte. Isso me bastaria.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Aderi ao Uber: cansei da lambança e da escrotália de muitos táxis comuns

Tenho lido artigos de colegas meus em sites e jornais de todo o país enchendo a bola do Uber, serviço de táxis diferenciado que está atuando no Brasil, gerando uma gritaria generalizada dos taxistas comuns. A Uber nasceu em San Francisco, California, em 2008, atua em 66 países e nas principais cidades do mundo oferecendo: carros de luxo, motoristas extremamente educados, corridas mais baratas que as dos táxis comuns na bandeira dois, segurança e, sobretudo, paz.

Hoje decidi pegar o meu celular e baixar o aplicativo deles. Por que? Porque não aguento mais aturar os maus taxistas que, infelizmente, estão invadindo até a 99 Táxis, Easy Táxi e serviços de aplicativos afins. Decidi hoje porque o desserviço atingiu o pico. Vamos lá:

1 – chamei um taxi pelo aplicativo; 2 – em vez de um carro em bom estado deparei com um velho Chevrolet que fedia a cigarro; 3 – quando entrei, o motorista fala com um amigo ao celular, combinando um churrasco que vão fazer sábado. Falava de picanha, maminha e, com isso, foi errando de rua, de trajeto. Ele não viu mas notei que um guarda o multou porque, como se sabe, é proibido falar ao celular dirigindo; 4 – na ponte, chovendo, trânsito pesado, perigoso, ele tirava finos dos outros carros (falando ao celular) até que perto do vão central a linha caiu. Ali celular não pega direito. O taxista parecia estar distraído mas não esqueceu de botar a bandeira dois; 5 – na falta de celular ele espetou um pendrive que tocava no mais alto volume a escória do sub-samba mundial. Aí eu não aguentei e, transtornado, mandei ele desligar aquilo. Acho que ele se assustou porque adivinhou que se não desligasse eu estava disposto a arrancar aquele pendrive e atirar pela janela ponte abaixo. Vejam o que um mau serviço faz conosco!

Desde os anos 1990 uso exaustivamente os táxis. Aprendi com amigos e colegas de São Paulo que já incluem o táxi em seus orçamentos de serviço, já que é impossível chegar pontualmente a um compromisso enfrentando o trânsito, procurando estacionamento e encarando a conta do final da odisseia que fica próxima a de uma corrida de táxi comum.

Sempre dando uma força aos taxistas (socialismo pessoal em terra de vara no lombo dá nisso) não queria entrar para o Uber. Mas ao longo desse mês notei: 1 – quando você pede um táxi pelos aplicativos, pode digitar o cartão de débito como forma de pagamento. Só que alguns taxistas metidos a malandrinhos chegavam no final da corrida e diziam que a máquina estava quebrada, ou com a bateria descarregada, ou...golpes em geral para forçar o passageiro pagar em dinheiro; 2 – apesar das empresas de aplicativo garantirem que só trabalham com táxis novos, na primeira quinzena de julho me chegou um Santana (aquilo mesmo, alguém lembra? O rei da escoliose porque tinha um problema crônico de chassis que deixava os banco do motorista e do carona tortos) com pelo menos 15 anos de uso. Não tive alternativa e entrei na joça, com o motorista fedendo a cecê; 3 – malandrinhos, muitos taxistas não ligam o ar condicionado a não ser que o passageiro peça. Carinha de má vontade, eles ligam; 4 – Hoje fui de Icaraí a Cidade Nova (Rio) numa bosta que me chegou (des) graças ao aplicativo 99 Táxis que cobrou 69 reais mais o pedágio. Fui a uma reunião, saí e decidi usar o Uber pela primeira vez. Um sedã preto zerado chegou, o motorista quis descer para abrir a porta eu disse que não precisava, insisti para viajar no banco da frente.

De terno e gravata (não precisava) perguntou se eu queria música. Eu disse que sim. “Temos os serviços do Spotify e do Rdio”, ele ofereceu. Sim, o carro estava conectado a internet. Lógico que pedi para acessar a Radio Cult FM e vim ouvindo, volume baixo, humano, super som, ar condicionado maravilhoso, carro suave, silencioso e...peguei no sono. Só acordei no pedágio da ponte.

Cheguei em casa. Preço da corrida: R$ 59,00, fora o pedágio. Ou seja, mais barato do que o coliforme fecal de aço (?) que peguei mais cedo. Peguei, mas não pego mais. Pensei “ótimo, agora só andarei de táxis da Uber que custa: tarifa básica - R$ 5,00; R$ 2,20 por quilômetro.” Mas Niterói não tem, o que muda tudo. Só vou usar táxis conhecidos (sorte que os bons tem cartões de visitas), abolir Easy Táxi, 99 Táxis, cooperativas e tudo mais. Do Rio? Volto de Uber.

Não é uma questão de ser mais elegante, mauriçola, isso ou aquilo. É que não aguento mais pagar para ser desrespeitado num país que se transformou na capital da cusparada da cara, do dane-se você, do é pegar ou largar. Agora é táxi conhecido na ida, Uber na volta e ponto final.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

Diálogo Interno: todo inconsciente é profissional; todo consciente é amador


Consciente – Gozado, escrevi um artigo apoiando o amor incondicional e quase fui apedrejado. Quase arrancaram o meu saco, penduraram numa pipa (ou cafifa, ou papagaio) e mandaram para longe.
InconscienteÉ assim mesmo. Quem tem sul tem medo. O pavor das pessoas com o amor só perde para cagaço que sentem da paixão. Principalmente a paixão virtual, que eu chamo de cisma, sabe qual é? Não, você não sabe qual é.
Consciente – Lá vem você com essas conversas, como se Jung, Freud e Lacan não tivessem feito o seu rastreamento. Só falta agora arrancar de uma frase solta e sem nexo a máxima “toda a vez que andei na linha o trem matou” e colocar no título do artigo.
Inconsciente – Será que vale à pena não arriscar e fingir que estou submetido ao seu comando? Todo inconsciente é profissional, assim como todo consciente é amador. E se eu te induzir a colocar essa máxima, que tem zaralhadas de explicações e análises, no título do texto, o que vai fazer?
Consciente – Alguns riscos valem sim. Eu arriscaria clicar num blog para ler uma opinião favorável a suruba existencial. Como você sabe (você é muito fofoqueira, com A mesmo) estou no meio de uma.
Inconsciente – Você está diferente hoje. Meio nublado, quase mormaço. Esquisito pra cacete, meu chapa.
Consciente– Ando tão a flor da pele que até beijo de novela me faz gozar. (Carlos Zéfiro).
Inconsciente– Que gracinha. Só rindo, diria aquele personagem de Rubem Fonseca.
Consciente– Não acho gracinha coisa nenhuma. Se um dia eu conseguir chorar vou te interfonar, sua vadiazinha fofoqueira.
Inconsciente– Nada que o tempo não resolva.
Consciente– O tempo e o vento. O importante é que continuo no timão de meu destino.
InconscienteHahahahahahahahah. Ninguém regula o destino, meu chapa. Nem eu. Ou você deixou de acreditar em inconsciente coletivo?
Consciente– Isso começou a virar papo de intelectualóide babaca. Nós dois já combinamos, tempos atrás, não cair mais nessa cilada imbecil. Mas achar que estamos no timão já dá uma força. Esse negócio de “deixa a vida me levar” é conversa de pagodeiro.
Inconsciente– Provavelmente por isso você não publicou o artigo sobre o amor incondicional, paixão virtual, esses sentimentos impossíveis, logo, tolos. Só falta me dizer que está apaixonado por uma mulher com quem nunca conversou para eu me mijar de rir aqui.
Consciente– Publiquei, sim! Ainda pus uma fogueira da Inquisição ilustrando o amor impossível porque o amor impossível, a paixão virtual, são escroques que merecem ser queimados em praça pública. Mas já que você insiste que toda a vez que se anda na linha o trem mata, assuma logo a irresponsabilidade irrestrita e vá viver como os existencialistas.
Inconsciente– Seu livro está quase pronto, né?
Consciente– Sim. Vai sair em outubro e eu deixei você falar a vontade. Até agora não sei direito se vai ser bom ou não. Volta e meia eu te chamo de privada do espírito, lodo da alma, caixa de gordura de essência.
Inconsciente– Sei disso. Acho bonitinho.
Consciente– Aliás, as pessoas deveriam conversar mais com seus inconscientes.
Inconsciente – Somos muito incômodos porque guardamos verdades ácidas e, talvez por isso, as pessoas prefiram nos apagar, ou, como dizem atualmente, deletar.
Consciente– Como assim?
Inconsciente– Ora, passarinho quando anda com morcego acaba dormindo de cabeça pra baixo. Estamos dentro de vocês e continuamos falando. Uma canção do Pink Floyd chamada “Comfortable Numb” descreve exatamente essa situação.
Consciente– The Wall é %*#oda.
Inconsciente– Muros. Quando submetidos a traumas muito violentos nós, inconscientes, nos tornamos muros.
Consciente– Que todo mundo tenta derrubar para se libertar. Estou tentando falar fácil para não espantar os leitores.
Inconsciente– Todo mundo não. Há os que preferem viver em bares todos os dias, o dia todo, tomando cerveja e conhaque, assistindo TV, fumando. Essas pessoas acham que estão nos dando uma rasteira. Hahahaha. Só rindo, diria o tal personagem de Rubem Fonseca.
Consciente– Aprendi muito conhecendo um pouco de você nas terapias ao longo da vida.
Inconsciente– Obrigado, você também é gente boa e, se tudo der certo, vai pro céu. Rsrsrsrsrs.
Consciente – E, no mais?
Inconsciente – Siga. O sinal está verde.






quinta-feira, 16 de julho de 2015

A impressionante magia da Legião Urbana

Impressionante o volume de acessos a essa oca digital quando o assunto é Legião Urbana. Ontem postei no Facebook esse banner feito pelo Luck Veloso, editor da Radio Cult FM (www.radiocultfm.com) e, de novo, choveu gente. Domingo em meu programa “Cafofo do LAM”, 11 da noite na Radio Cult, Dado Villa Lobos vai falar sobre o seu livro e Renato Russo sobre o sucesso da Legião.
Ia até escrever um e-mail sobre esse fenômeno para Jamari França (o programa dele é o Jam Sessions, também na Cult FM, domingo, 10 da noite), que com o também colega Arthur Dapieve é um dos maiores conhecedores de Rock do Brasil (no meu ranking pessoal) para saber que mística é essa que cerca a Legião e o Rock dos anos 80 de um maneira geral.
O que NÃO aconteceu nos anos 90 e 2000 é o que faz dos anos 80 esse gigante pela própria natureza? Estamos assistindo a uma nova virada (ufa!) do Rock Brasil, que está retornando a cena? Sim, porque diz a lógica que quando o presente não consegue superar o passado alguma coisa está fora os eixos. Tudo bem que eu ligo o rádio e urrrrrgh, não dá para ouvir, mas isso não é novidade alguma. Tanto que agora só ouço rádio na internet.
Continuo recebendo material de novas bandas e o que ouço, no acostamento do sucesso, me agrada. Aí a pergunta bate mais forte: por que um banner, um programa, um artigo sobre a Legião Urbana, anos e mais anos depois da banda ter acabado, bate recorde de audiência? O que é isso? Alguém explica?
P.S. – Fragmento do livro “Conversações com Renato Russo” de Julio Vasco.
Nome: Renato Manfredini Junior
Apelido: Junior
Data e local do nascimento: 23/03/60, Rio de Janeiro
Data de falecimento: 11/10/96
Mãe e Pai: Maria do Carmo e Renato
Irmãos: uma, Carmem Teresa Manfredini
Filho: Giuliano Manfredini
Signo: Áries
Formação: Jornalismo, em DF
Altura e Peso: 1,74m, 65 Kg
Algo no corpo o incomoda? "Minha saúde. Foram 15 anos de droga- adicção".
Parte do corpo de que mais gosta: "Cérebro. E também adoro as minhas mãos".
Cuidados com o corpo: "No momento, manter-me longe do alcoolismo já é um milagre".
A que horas dorme e acorda: "Vou dormir às sete da manhã e acordo meio-dia. De dia, não faço nada, porque o mundo está acontecendo".
Propriedades: "Só o meu apartamento".
Símbolo sexual: "O Leonardo, da seleção. Eu acho ele um gatinho".
Primeiro beijo: "Aos 9 anos, com a minha namorada nos EUA. Achei a coisa mais nojenta".
Primeira transa: "Foi num carro, aos 17"
Lugar mais esquisito onde fez amor: "Embaixo do telhado, no vão da caixa d'água"
Melhor lugar para fazer amor: "Um lugar onde a gente se sinta mais seguro".
Fantasia não realizada: "Ganhar o Oscar".
Homens são: "Bobos, que nem cachorro".
Mulheres são: "Misteriosas que nem gato".
O que te seduz? "Espírito, bondade, desejo".
O que te broxa? "Estupidez, pretensão".
Melhor cantada: "Do Scott, em Nova York, num bar gay. Vi aquele menino loirinho, cara de estivador, vindo na minha direção! Pedi um cigarro, ele disse: Não!. Saiu. Voltou com um maço novinho pra mim. Ficamos juntos dois anos".
Pior cantada: " 'Gosto de mulher mas também gosto de viado! '- Vá à merda!".
Última pessoa que levaria para cama: "Paulo Francis"
Maior maldade que já fez: "Não admitir que as pessoas se preocupavam comigo".
Maior mentira que já contou: "Só mentiras bobas. Aqui, eu não falei toda a verdade".
Arrependimento: "Não conhecer a programação dos doze passos na época do Scott".
Palavra preferida: "Essência".
Palavra que mais usa: "Eu".
Canção: "I Get Along Without You Very Well"
Compositor preferido: "Bob Dylan".
Livro: "Sonetos, Shakespeare".


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Roubadas da China

A História conta que dos séculos 16 a 18 um navio ia da Índia para a China em um ano e meio (ida e volta). Como era uma viagem muito perigosa, se num grupo de três naus duas afundassem, ainda assim o negócio dava lucro. Mas, os portugueses da Índia descobriram que podiam fazer viagens muito mais curtas e com lucros muitíssimo maiores. Morria gente como moscas, mas “fazia parte do negócio”, chamado “Negócio da China”.

Atualmente afirmo com muita tranquilidade que qualquer negócio da China, ou com a China, é a maior roubada para qualquer pessoa ou país em qualquer ponto do planeta. A China pratica descaradamente um regime escravo de trabalho, utilizando mão de obra totalmente desqualificada, tecnologia pirateada e retrógrada, enfim, é um esgoto a céu aberto de aberrações éticas.

Muitos brasileiros compram produtos chineses que, por serem extremamente vagabundos, custam muito menos. O frama é escapar deles. Todas as marcas de computadores, tablets, celulares, de todas as marcas e todos os outros produtos eletro-eletrônicos tem fábricas na China.

Eu mesmo fui vítima dessa lambança de olhinhos puxados. Tempos atrás fui comprar num site de São Paulo um relógio baratíssimo que só chegou três meses depois. Pior: no site não tem “fale conosco”, nem telefone, nem e-mail. Foi quando descobri, através de leitores no Facebook, que a tal empresa é chinesa.

Como vivemos sob um regime densamente populista desde o Sr. Luis Ignacio Lula da Silva, qualquer país entra no Brasil e faz o que bem entende. Agora com essa recessão, a China tomou conta e está provocando uma quebradeira no parque industrial brasileiro. O governo nada faz porque... porque... porque... sei lá porque. Essa é uma das caixas pretas dos regimes populistas.

Você compra produtos chineses? Não falo de artigos que são fabricados na China e nem sabemos disso, mas daqueles que trazem atrás, ou embaixo, o famigerado Made in China. Antro da escravidão, aquela terra de gente que padece consegue colocar aqui dentro produtos até 87% mais baratos porque sua mão de obra é treinada pela chibata, movida pela tortura e a tecnologia utilizada por 100% das empresas é deliberadamente pirata.

Claro que se eu soubesse que a tal empresa onde comprei meu relógio era chinesa não faria o negócio. Por que? Porque comprar da China é contribuir para o escárnio, para a lambança, para tudo o que existe de pior nas relações humanas.



sábado, 11 de julho de 2015

Ficção: Série Entrevistas Imaginárias – Jimi Hendrix


Discussão com o público na Alemanha, dias antes de morrer                                                                        




    Últimas fotos. Feitas pela namorada Monika Dannemann na véspera da morte de Jimi
Jimi Hendrix saiu do elevador e se aproximou devagar naquele final de tarde em 10 de setembro de 1970. Um metro e setenta de altura, magro, cruzou o hall do hotel ajeitando os cabelos com a mão. Um leve sorriso, cumprimentou e sentou. Pediu uma água mineral e estava visivelmente cansado e abatido. Acendeu um cigarro, perguntou a hora a alguém e olhou para mim. Semblante grave.

O maior guitarrista de todos os tempos morreu oito dias depois, ali mesmo em Londres, aos 27 anos. Na noite anterior estava numa festa com a namorada Monika Dannemann no Hotel Samarkand, número 22 da Lansdowne Crescent, em Notting Hill.  

Ao contrário do que muitos pensam, não foi de overdose. Tomou tranquilizantes, passou mal dormindo, asfixou-se com o próprio vômito. Uma ambulância foi chamada mas ele não resistiu. Eric Burdon (ex-Animals) diz que tem um “poema suicida” de Jimi guardado, que jamais irá tornar público.

A entrevista:

Pergunta - Jimi, como estão as coisas?

Jimi Hendrix – Hum.....como estão as coisas? (baixa o olhar, mão direita no queixo, acende outro cigarro). Poderiam estar melhor, mas a gente não tem o controle de tudo... não tem.

P – Você se refere as vaias no Festival de Fehmarn, Alemanha, domingo?

J.H.  - Não...aquele festival estava a maior bagunça, as pessoas não sabiam quem estava no palco. Muita doideira, muita doideira no mau sentido.

P – Você chegou a bater boca com a platéia.


J.H. - Eu estava muito cansado, sem paciência...aquele lance de paz e amor já tinha dado o que tinha que dar. Aí entrei no palco e começaram as vaias. Parei e falei algumas coisas no microfone.

P -  Sim, você é um cara de paz...

J.H. - Mas tenho meus limites...

P -  Você está feliz com as mudanças, o fim do Experience, a criação da nova banda, novos músicos?

J.H. - É público e notório que não estou feliz...e você sabe disso (irritado). Na verdade eu fui levado a essa situação, buscar um novo som sem saber direito o que queria. Por ser negro as pessoas em geral sempre me cobraram muito para fazer somente música negra, mas eu respondia que música não tem cor. Quando disse (e repito) que a Motown é esquemão, é som fabricado feito só para vender, muita gente odiou. Quando fiz o trio com Noel Redding no baixo e Mitch Mitchell na bateria, disseram que eu fazia rock de branco. Não sei se o fato dos dois serem brancos e ingleses pesou nisso, mas eu ignorei. Mas no ano passado decidi mudar, fazer uma coisa mais soul...e aí...bom, sejamos francos, eu irritei o público de rock e de rock blues e não conquistei o pessoal da soul music, funk, etc...fiquei no ar.

P – Por isso as reações?

J.H. - É...pode ser...

P – Além da crise musical, problemas financeiros.

J.H. - Todo mundo sabe que sou roubado por empresários desde que comecei. O único que foi honesto comigo foi o Chas (Chas Chandler)...mas a culpa é minha. Muita doideira, gosto de ácido, gosto de drogas leves, bebo bem e aí já viu. Me levaram tudo...vacilo meu.

P – Você deu mesmo a Eric Burdon um poema suicida?

J.H. - É a letra de uma música que compus para ele. Mal profissionalmente, falido, quebrado..aquela letra saiu numa noite de desespero mas não é nada suicida...sou um cara solar, amo a vida...e espero que o Eric saiba usar a letra...poema suicida...essa é boa.

P – E as drogas?

J.H. - Muitos pensam que sou viciado em heroína, mas não é verdade...Aquela heroína que plantaram em minha bagagem em Toronto ano passado, acabei preso em Toronto...aquilo....foi aquilo que criou esse boato. Tomo LSD? Tomo, gosto. Uso maconha? Uso. Anfetaminas e mescalina de vez em quando, mas não gosto de heroína.

P – Por que você tem dito que depois que morrer quer ser lembrado por suas músicas?

J.H. - Disse isso numa entrevista e começaram a espalhar que eu estava deprimido...na verdade estou deprimido, mas não com obsessão pela morte ou coisa parecida.

P -  Mas você gostaria mesmo de ser lembrado...

J.H. Sim (me cortando)... ser lembrado pela minha música...Sempre.

O final dos tempos:

Em 3 de maio de 1969 Hendrix foi preso no Aeroporto Internacional de Toronto após uma quantidade de heroína ter sido descoberta em sua bagagem. Ele foi mais tarde posto em liberdade depois de pagar uma fiança de 10 mil dólares. Quando o caso foi a julgamento Hendrix foi absolvido, afirmando com sucesso que as drogas foram postas em sua bolsa por um fã sem o seu conhecimento. 

Em agosto de 1969, Hendrix formou uma nova banda chamada Gypsy Suns and Rainbows, para tocar no Festival de Woodstock. Ela tinha Hendrix na guitarra, Billy Cox no baixo, Mitch Mitchell na bateria, Larry Lee na guitarra base e Jerry Velez e Juma Sultan na bateria e percussão. Hendrix estava sob o efeito de uma dose potente de LSD tomada pouco antes de subir ao palco e tocou para uma plateia que se esvaziava lentamente.

Gypsy Suns and Rainbows teve vida curta e Hendrix formou um novo trio com velhos amigos, o Band of Gypsys, com seu antigo companheiro de exército, Billy Cox, no baixo e Buddy Miles na bateria, para quatro memoráveis concertos na véspera do Ano Novo de 1969/1970. 

Felizmente os concertos foram gravados incluindo momentos que muitos acham ser uma das maiores performances ao vivo de Hendrix, uma explosiva execução de 12 minutos do seu épico antiguerra 'Machine Gun'.

Em 28 de janeiro de 1970 acontecia no Madison Square Garden, em Nova Iorque, um dos maiores concertos já organizados em prol da paz no Vietnã, o Festival do Inverno para a Paz. Teve sete horas e meia de duração. O baterista, Mitch Mitchell e o baixista Noel Redding, estavam no backstage porque participariam do fim do show fazendo uma jam com a Band of Gypsys, grupo que sucedeu o Experience. 

Michael Jeffrey, empresário de Hendrix, deu-lhe um ácido pensando que isso levantaria o astral de Jimi e faria com que o show saísse melhor. Mas o resultado foi o contrário e Jimi ficou fora de si em pleno palco, dizendo para uma garota na plateia “você está menstruada? Eu posso ver através das suas bermudas”. Quando terminou de perguntar, se arrependeu e disse“nós não estamos bem” e abandonou o palco no meio da segunda música.

- Em agosto ele tocou no Festival da Ilha de Wight com Mitchell e Cox, expressando desapontamento no palco em face do clamor de seus fãs por ouvir seus antigos sucessos, em lugar de suas novas ideias. 

Em 6 de Setembro, durante sua última turnê europeia, Hendrix foi recebido com vaias e insultos por fãs, quanto se apresentou no Festival de Fehmarn, na Alemanha, em meio a uma atmosfera de baderna. O baixista Billy Cox deixou a turnê e retornou aos Estados Unidos depois de supostamente ter utilizado fenilciclidina, uma substância analgésica.

Antes da morte no mesmo ano, Hendrix iria começar um novo projeto, junto com o guitarrista e baixista Greg Lake (na época no grupo King Crimson) e o tecladista Keith Emerson.
Greg, que acabava de deixar o King Crimson e Keith procuravam por um baterista e percussionista, e chegaram a conversar com Mitch Mitchell. O ex baterista do Jimi Hendrix Experience, Gypsy Suns And Rainbows e Band Of Gypsys recusou, mas passou a ideia para Hendrix, que aceitou. 

A banda iria incorporar também Carl Palmer, baterista e se chamaria HELP (Hendrix, Emerson, Lake & Palmer). Infelizmente Jimi morreu, mas o projeto seguiu e nasceu o trio  Emerson, Lake & Palmer.