sábado, 19 de agosto de 2017

A esquerda que vivenciei

Minha adolescência foi apolítica e selvagem, no bom sentido. Mesmo quando comecei a escrever em jornais locais, com 15 anos, política era um tema distante, velho e que, com o tempo (o meu tempo) tornou-se proibido. A ditadura estava no auge (anos 70) e ninguém explicava o que estava acontecendo para nos resgatar do estranho planeta da alienação ideológica. Na verdade, meus amigos e eu estávamos com o radar em outra posição: meninas, mulheres, música, passarinhos, pipas, balões, sítios, cavalos, praia, espinhas no rosto, punheta.

Os professores de História do Brasil iam, no máximo, até Getúlio Vargas, descrito como um escroto pelos mestres (mais tarde comprovei) como se o Brasil tivesse sido parido em 1500 e abduzido em 1954. Havia alguma curiosidade nossa com relação a aquele mormaço provocado pelo silêncio imposto pela ditadura, mas ainda assim, não quis me informar mais, apesar de saber o que significava a pichação “fora comunas” ou “morte aos padres filhos da puta” em alguns muros da cidade.

Quando comecei a trabalhar na grande mídia aos 16 anos, mantive os primeiros contatos com pessoas ligadas à esquerda. Foi quando soube, abismado, que a carnifica no país seguia seu curso macabro e aprendi que minha cautela era máxima, apesar de nunca ter militado em nada, nem escotismo. Só que para a minha surpresa me encantei com o ideário da esquerda, principalmente a chamada esquerda radical, que pegou em armas, assaltou bancos, sequestrou poderosos em nome de uma sociedade justa, igual, comunista.

O ideário esquerdista dizia que “os fins justificam os meios”, e, sinceramente, quando comecei a escrever no Pasquim e Opinião (dois jornais ultra esquerdistas) aderi a defesa da necessidade urgente de uma revolução popular para instaurar a ditadura do proletariado. Assim como todos os movimentos de esquerda, em especial os radicais, a palavra democracia não era citada. O modelo era, basicamente, o cubano, com fartas doses de maoismo, stalinismo, trotskismo. Gente de direita era tratada como déspota, democratas como viadinhos de butique.

Acreditei que assaltos a bancos eram necessárias “expropriações revolucionárias”, que os sequestros eram uma forma de “capitalizar e socializar o movimento”. Contraditoriamente, apreciava o radicalismo de esquerda e a proposta hippie em sua receita de paz e amor, tratada como alienante. Pela esquerda.

Com o avanço do tempo, além de defender a ditadura do proletariado acreditei que só Estado poderia resolver as mazelas do mundo. Defendi em artigos, discussões, bate bocas, a estatização de tudo. Bancos, supermercados, empresas de ônibus, escolas, clínicas, hospitais. O Estado estatizante seria soberano e o ideário esquerdista era claro ao afirmar que aqueles que roubassem dinheiro público seriam devidamente “justiçados”, ou seja, eliminados, fuzilados, mortos.

Com o passar do tempo, a esquerda foi se deformando. Coincidentemente (?) tornei-me democrata ferrenho e não engoli quando o ideário purista e limpo começou a dar lugar ao “pragmatismo” inventado pelos oportunistas e larápios em geral. Comecei a romper com o esquerdismo quando o novo (?) trabalhismo surgiu à bordo do recriado PTB e do PT. O primeiro nascia fisiológico e até a medula, apesar de alguns bons quadros filiados a ele e o PT, quase imediatamente após a sua criação, foi tomado por parasitas do movimento sindical. O MDB se esfacelou. Tancredo Neves, hoje santinho de cabeceira dos novos esquerdistas, criou em 1980 o famigerado Partido Popular (com anuência do general Figueiredo), um ajuntamento de escroques do naipe de Chagas Freitas, ex-governador do Rio.

Veio a redemocratização, com Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Alguns grandes nomes da esquerda que conheci foram presos por corrupção. Sorte minha que larguei o balaio lá por 1978 quando o jornalismo me levou a ter contato com as mais variadas matizes da escrotidão política. Corria o risco de: 1 – padecer de tanta decepção e desilusão; 2 – tentar explicar a corrupção, ato inexplicável por si só.

Democrata, hoje não sou esquerda, muito menos direita. Leio, vejo, constato gente imbecil e pobre de espírito chamando os outros de “alienados” em nomes de devaneios oportunistas e espúrios que justificam o assalto ao Estado como necessidade. Muita gente acha que o assalto monumental e histórico do PT e seus blue caps (PMDB, PP...) foi ideológico!

Meu dilema. A esquerda que conheci já era uma caixa de gordura totalitária e ladra nos anos 70, disfarçada de reino moralista, ou a falência ética veio depois?


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O planeta da ficção

A nova edição de meu primeiro romance vai muito bem, obrigado. Chama-se “5 e 15 – Rock Romance” e está sendo bem recebido desde o que lancei. O que é? Depois de uma longa, profunda e (por que não?) sofrida pesquisa, comecei a escrever "5 e 15 - Rock Romance". O livro é uma ficção, mas desde que comecei a pensar nele acreditei em Crimson, psiquiatra e cientista obcecado em descobrir uma substância capaz de livrar os seres humanos da dependência química de drogas pesadas. Em especial cocaína e heroína.

Em minha pesquisa, entrevistei grandes psiquiatras, visitei clínicas e muitos fatos narrados no livro aconteceram. O caso do homem que transformou o corte de suas unhas sua linha do tempo, um outro que se achava um pássaro. Algumas situações afetivas também, como o caso uma das mulheres-chave do livro.

Por que o carro, com marca e modelo? Porque tive um e foi nele que viajei para alguns lugares para caçar subsídios para o livro. Livro que é uma homenagem aos amigos, conhecidos e vários ídolos que as drogas pesadas mataram a partir de 1980. Por isso, 1980 é o marco zero de "5 e 15", quando, diz a gíria, começou a "nevar" no Brasil, ou seja, a cocaína imperou.

Liliana de La Torre e André Valle foram as primeiras pessoas a acreditar no livro. Liliana tem a minha eterna gratidão. Através da sua Tech & Mídia ela editou a primeira versão (impressa) em 2006. A nova edição, que foi lançada em versão digital na Amazon (conheça clicando aqui: http://j.mp/lam_5_15  está muito, muito diferente e conta com o suporte de Philippe Mello, sobrinho e afilhado, craque em gestão e ideias atípicas.

Continuo acreditando no sonho de Crimson, na potência da ciência associada ao amor e na honestidade de muitas pessoas. Caso contrário, não investiria 12 anos de vida neste trabalho.


P.S. - Doctor Jimmy existiu. Foi um amigo e saudoso terapeuta que revolucionou todos os conceitos da psicologia, mas não deixou registro de seu método revolucionário.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

De saco cheio

                                       
De saco cheio de pagar pra sofrer
De saco cheio de ter que achar bonitinho bicicletas na calçada
De saco cheio de Trump, Dilma, Temer, Lula, Maduro, Kim Jong-un 
De saco cheio de viver no pior estado do sul/sudeste
De saco cheio de ceder a vez
De saco cheio de fingir que está tudo bem
De saco cheio de poluição, esgoto, miséria
De saco cheio de forças tarefas de qualquer espécie
De saco cheio de dar boa tarde e não ouvir nada
De saco cheio de não ter jipe
De saco cheio de não sumir
De saco cheio de ser gentil
De saco cheio de ouvir reclamações
De saco cheio de direita, esquerda, centro
De saco cheio de vitimologistas
De saco cheio de pilantropia
De saco cheio de “fazeção de média”
De saco cheio de “fazeção de mídia”
De saco cheio de ser povo bonzinho
De saco cheio de “desculpe, o sistema está lento”
De saco cheio de anotar número de protocolo
De saco cheio de dormir mal
De saco cheio de ansiedade
De saco cheio de ter que me explicar
De saco cheio de conceder
De saco cheio de “fazendo um favor”
De saco cheio de estar acima do peso
De saco cheio de estar abaixo do peso
De saco cheio de dar satisfações
De saco cheio de oportunismo étnico e político
De saco cheio de esperteza social
De saco cheio de ser coerente
De saco cheio de não mandar a merda
De saco cheio de pedir desculpas
De saco cheio de ser babaca
De saco cheio de “perdão, atrasei porque o trânsito...”
De saco cheio de deixar de ser livre
De saco cheio de jaulas
De saco cheio de bola e corrente
De saco cheio de Neymar
De saco cheio de futebol, meninas de vólei, olimpíadas de cocô
De saco cheio de mim
De saco cheio da lucidez
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio
De saco cheio



Had Enough
The Who

I've had enough of bein' nice
I've had enough of right and wrong
I've had enough of tryin' to love my brother
I've had enough of bein' good
And doin' everything like i'm told I should
If you need a lover, you'd better find another
Life is for the living
Takers never giving
Suspicion takes the place of trust
My love is turning into lust
If you get on the wrong side of me you better run for cover
I've had enough of bein' trodden on
My passive days are gonna be long gone
If you slap one cheek, well, I ain't gonna turn the other
Life is for the living
Takers never giving
Fooling no one but ourselves
Good is dying
Here comes the end
Here comes the end of the world
I'm gettin' sick of this universe
Ain't gonna get better; it's gonna get worse
And the world's gonna sink with the weight of the human race
Hate and fear in every face
I'm gettin' ready and I've packed my case
If you find somewhere better, can you save my place?
Fooling no one but ourselves
Love is dying
Here comes the end
Here comes the end
Here comes the end of the world



terça-feira, 15 de agosto de 2017

Negócios da China

A História conta que dos séculos 16 a 18 um navio ia da Índia para a China em um ano e meio (ida e volta). Como era uma viagem muito perigosa, se num grupo de três naus duas afundassem, ainda assim o negócio dava lucro. Mas, os portugueses da Índia descobriram que podiam fazer viagens muito mais curtas e com lucros muitíssimo maiores. Daí a expressão “Negócios da China”.

Atualmente afirmo com muita tranquilidade que qualquer negócio da China, ou com a China, é a maior roubada para qualquer pessoa ou país em qualquer ponto do planeta. A China pratica um regime escravocrata de trabalho, utilizando mão de obra e material totalmente desqualificados, tecnologia pirateada e retrógrada, enfim, é um esgoto a céu aberto de aberrações éticas.

O problema é que, sempre pensando em se dar bem, muitos brasileiros compram produtos chineses que, por serem extremamente vagabundos, custam muito menos. Eu mesmo já fui vítima dessa lambança. Fui comprar num site de São Paulo um relógio baratíssimo que só chegou mais de dois meses depois. Pior: no site não tem “fale conosco”, nem telefone, nem e-mail. Foi quando descobri, através de leitores no Facebook, que a tal empresa é chinesa.

Você compra produtos chineses? Não falo de artigos que são fabricados na China e nem sabemos disso, mas daqueles que trazem atrás, ou embaixo, o famigerado Made in China. Antro da escravidão, aquela terra de gente que padece consegue colocar aqui dentro produtos até 87% mais baratos porque sua mão de obra é treinada pela chibata, movida pela tortura e a tecnologia utilizada por 100% das empresas é deliberadamente pirata.

Claro que se eu soubesse que a tal empresa onde comprei meu relógio era chinesa não faria o negócio. Por que? Porque comprar da China é contribuir para o escárnio, para a lambança, para tudo o que existe de pior nas relações humanas.

Humanas?






domingo, 13 de agosto de 2017

"Quadrophenia", a melhor ópera rock da história

      O álbum
                                                     O filme
                                      O filme
Quadrophenia, escrito por Pete Townshend, gravado pelo The Who e lançado em 1973 em álbum duplo, é a melhor ópera rock da história. Na década de 1960, Pete Townshend e The Who definiram o conceito de "ópera rock" com Tommy (de 1969), dando um passo à frente com Quadrophenia. Concebida e escrita por Townshend, Quadrophenia acabou se tornando um emblema.

Townshend tornou públicos os seus traumas em Tommy (1969) e Quadrophenia (1973), para mim o melhor disco da história do Who. Acho que para o criador da banda, guitarrista, cantor, compositor, poeta, romancista, teatrólogo, cineasta Peter Dennis Blanford Townshend, londrino de 70 anos, é a obra-prima do Who. Ele faz declarações de amor escancaradas em sua autobiografia.

Álbum duplo conceitual, Quadrophenia foi lançado no mesmo ano de The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd. Mas, o que Townhend escreveu fez com que vários críticos, biógrafos e fãs começassem a chamar o disco de “álbum da minha vida” porque, de ponta a ponta, ele aborda todos os tipos, formas e consequências do hediondo e deformador sentimento de rejeição (e baixa estima), tão ou mais grave e dilacerador quanto a culpa,a inveja, o ciúme.

Em 1979 o diretor Franc Roddam lançou o filme que, evidentemente, contou com a consultoria de Pete Townshend que entregou a direção musical a John Entwistle, baixista do Who (1944-2002). Vacilou. Até a famigerada flauta doce o saudoso baixista (morto de cocaína com vinho em 2002) meteu na trilha sonora que, comprei, ouvi uma única vez e derreti em seguida, transformando o vinil em cinzeiro, como já havia feito com uma série de outros discos, para mim, execráveis.

Não é um filme fácil. Alternativo, tem uma levada intrispectiva, cheiade sub texto, usa uma certa textura mod/punk e, claro, mostra a influência da Nouvelle Vague na direção de Franc Roddam. Em outras palavras, não é um filme comercial.

Felizmente o filme Quadrophenia saiu há 15 dias no Brasil, em DVD, legendado, áudio 5.1. Comprei no site da Americanas (www.americanas.com.br), paguei 20 reais e mais 2 reais de frete. Numa versão mambembe, assisti ao filme Quadrophenia em 1981, mas sem legenda. Até os ingleses tem dificuldade de entender o dialeto mod (grupo de pós-adolescentes que formavam quadrilhas de scooters em Londres no início dos anos 60) mas um dia, para a minha surpresa, o filme passou no Corujão da Rede Globo, tipo três horas da madrugada de uma quinta para sexta-feira, dublado. Há coisas nesse mundo que desisti de entender, como, por exemplo, Quadrophenia exibido na Rede Globo. A dublagem era cômica.

O filme é ambientado em 1963 e conta a história de um garoto chamado Jimmy Cooper (vivido pelo ator Phil Daniels) que, com a sua scooter, vive rodando com os outros colegas mods (expressão de que vem de moderns), filhos de operários, que são molestados e perseguidos pelos rockers, de classe média, montados em potentes motocicletas.

Jimmy briga em casa e é expulso com tapas na cara, chamado de vagabundo. Vai trabalhar, se defende de uma injustiça, manda o chefe tomar no rabo e é demitido. Se apaixona por uma garota, mas durante uma viagem do bando a Brighton, litoral onde rolou de fato uma batalha campal com os rockers, dezenas de presos e feridos, ele flagra a namorada com um cara dando amassos num beco.

E as rejeições vão se acumulando, Jimmy ingerindo cada vez mais doses cavalares de anfetaminas, até perceber que o único sentido de sua vida é o bando, a ideologia mod. Bando este que tinha um líder, rebelde radical que no filme é Ace Face, vivido por Sting, admirado, cultuado por Jimmy Cooper. A lambreta do personagem de Sting é cromada, cheia de espelhos, enfim, “cavalo” de um verdadeiro líder.

Até que um dia, atravessando mais uma crise de angústia, Jimmy vê a lambreta do líder encostada em frente a um hotel. Pior: flagra o próprio líder anarquista trabalhando como carregador de malas (“Bell Boy”), dizendo “sim, senhor”, “sim, senhora”, recebendo gorjetas, enfim, um capacho social. Indignado, Jimmy espera Sting entrar e rouba a lambreta dele. Sem família, sem mulher, sem trabalho, sem grupo de amigos, decide se atirar de uma escarpa britânica. Com a lambreta do personagem de Sting. Mas, há sempre um mas, Townshend deixa em aberto se Jimmy Cooper morreu pois a lambreta cai no abismo vazia.

Os danos das rejeições são profundamente tratados nesse filme que a crítica mundial classificou como “drama”. Aos que perguntam se é uma autobiografia de Townshend, a resposta é não. Aos que perguntam se retrata a adolescência de mais de 80% dos fãs do Who, com certeza a resposta é sim.

Trilha sonora:

The Who - 

     Overture - I Am the Sea - The Who
  1. The Who - The Real Me
  2. The Who - I'm One
  3. The Who - 5:15
  4. The Who - Love Reign O'Er Me
  5. The Who - Bell Boy
  6. The Who - I've Had Enough
  7. The Who - Helpless Dancer
  8. The Who - Doctor Jimmy
  9. High Numbers - Zoot Suit
  10. Cross Section - Hi Heel Sneakers
  11. The Who - Get Out and Stay Out
  12. The Who - Four Faces
  13. The Who - Joker James
  14. The Who - The Punk and the Godfather
  15. James Brown - Night Train
  16. Kingsmen - Louie Louie
  17. Booker T. & the MG's - Green Onions
  18. The Cascades - Rhythm of the Rain
  19. The Chiffons - He's So Fine
  20. The Ronettes - Be My Baby
  21. The Crystals - Da Doo Ron Ron
  22. High Numbers - I'm The Face



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Bonzinho é o cacete!

Em seu “Diário de Viagem”, o filósofo Albert Camus conta que quando esteve no Rio, em 1949, ciceroneado pelo grande Abdias Nascimento, pediu para conhecer um centro de umbanda. Era agosto, um agosto mais para verão do que para inverno. Abdias providenciou um táxi e foram, ele e Camus, em direção da Baixada Fluminense onde ficava o centro. Só que, no caminho, nas imediações da Praça da Bandeira, um caminhão atropelou e matou um homem. Os dois viram tudo.

Antes da ambulância, da polícia e dos bombeiros, um Camus boquiaberto viu chegar um grupo de pessoas que levantava o rosto do atropelado, para...ver. Horrorizado ele conta ainda que em seguida, “surgidos do nada”, pedaços de jornal e velas. O corpo foi coberto, as velas acesas e as pessoas ficaram em volta. De vez em quando um ia lá e levantava o jornal para ver a cara do morto. Camus não entendeu nada e Abdias não quis dizer que tratava-se, mais uma vez, de uma manifestação da nossa morbidez.

A espécie humana é perversa, uma falha que veio surfando em nosso DNA. A audiência cavalar de programas mundo cão, em todo o mundo, é uma prova disso, mas aqui no Brasil o processo é mais descarado. Simulando horror, as pessoas se amontoam em frente a TV para ver como foi feito o buraco onde madrasta enterrou a criança viva. Chegam mais perto da TV para verem as imagens da privada  atingindo e matando o torcedor no nordeste e fingem que se envergonham ao saberem que uma inocente, acusada de sequestradora, foi linchada por engano no Guarujá. 

"Repórteres" passaram dias perguntado aos habitantes de Chapecó "como estavam se sentindo" diante da queda do avião com o time. Adivinhem como as pessoas estavam se sentindo? Em frente a câmera, balbuciam alguma coisa e choram, para orgasmo da câmera que dá um close para mostrar as lágrimas, o horror. A cena foi ao ar num viveiro de zumbis chamado “Profissão Repórter”.

A audiência. Insaciável pega o controle remoto e passam a noite catando sangue. A ponto do autor de uma novela das nove ter inserido violência na trama para subir a audiência. Me disseram que a novela das nove, “Força do Querer”, ensina criminalidade.

Nos anos 1970 a atriz Kate Lyra (norte-americana, na época casada com o compositor e cantor Carlos Lyra) tinha um quadro de humor na TV cujo bordão, debochado, era “brasileiro é tão bonzinho...”, como se dissesse "bonzinho é o cacete!




quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Netflix

O Estado do Rio elegeu (empoderou, como dizem os “muderninhos” politicamente corretos) uma constelação de medíocres (e safados) e isso aqui virou guerra civil. Agora não sabemos, sequer, se vamos conseguir sair de casa, o que dirá voltar. Os governantes assaltaram os cofres públicos até o talo e decretaram um oportunista “estado de calamidade pública”.

Sicário, o governador do RJ pediu tapa na cara quando alugou jatos de uma empresa de táxi aéreo por R$ 2,5 milhões por mês. Isso mesmo! Com gente morrendo de fome sem receber salário. Saiu nos jornais de hoje.

Recentemente um americano foi assaltado em Ipanema. O bandido levou tudo e, não satisfeito, deu quatro tiros de pistola nove milímetros na vítima. Não acertou nenhum e ainda levou uma surra do americano. Na delegacia a vítima voltou a ver o bandido, teve um ataque de fúria e, pasme, foi preso. Sim, no Rio o turista leva quatro tiros e acaba em cana. Só rindo. O americano volta amanhã para Nova Iorque jurando nunca mais pisar aqui. Culpa dele? Não sabia que a “cidade maravilhosa” caminha para ser um novo Afeganistão, com todo o respeito que tenho pelo Afeganistão?

No rastro do emporcalhamento político administrativo do Rio, muitas empresas alegam “é a crise...” (sempre ela) e investem no que há de pior (e mais barato) em mão de obra desqualificada, o que garante uma boa alavancada nos lucros.

É quando a vítima, já farto do estelionato político, resolve espairecer, quem sabe pegar um cineminha. Tudo bem. Entra no carro (tem que ser um modelo popular para não atrair o verdadeiro governante, o bandido), paga quase 15 reais de estacionamento no cinema (se deixar na rua perde o carro, ou metem uma arma na cabeça dele) e compra o ingresso (R$ 31,00), apesar da sala de espera estar quente porque parece que o ar condicionado não está funcionando direito (mentira, é economia de luz).

Próxima etapa: comprar um saco médio de pipoca e uma garrafinha de água mineral pequena: R$ 15,00. Entra na fila, espera, espera, espera, chega a sua vez. Pega a pipoca, a água e caminha para a entrada do cinema onde um funcionário diz que o sistema de projeção pifou.

Podiam ter avisado antes? Sim. Mas sabem como é a incompetência. Antes de ir para a roubada a vítima tentava falar com o cinema por telefone, mas ninguém atendia. Podiam ter avisado na bilheteria? Podiam. Ou, quem sabe, lá fora no estacionamento para a vítima não morrer em R$ 12,00. Afinal, vivemos um tempo de fartura tecnológica. O sujeito peida aqui e sentem o fedor em Bangladesh.

O pessoal do estacionamento explica (?) que devido aos assaltos agora os clientes tem que pagar antes de entrar e não na saída. Consolo: um rabisco no ingresso autorizando a entrada em outro dia, quando o sistema provavelmente voltará funcionar. Ou, então, pegar o dinheiro de volta, como determina o Código de Defesa do Consumidor.

A vítima chega em casa, entra na página do cinema no Facebook e reclama. Horas depois uma pessoa sem nome que se identifica apenas com o modernoso e pomposo título de “equipe de comunicação de mídias sociais” diz que “vamos apurar o ocorrido para lhe responder adequadamente”. Ninguém assina. E ninguém diz nada um dia depois. Meses depois. Nunca mais.

Dia seguinte. Apesar de ter percebido que entrou em festa de vara fantasiada de bunda a insistente vítima retorna ao cinema com o ingresso rabiscado. Fila na entrada da sala. Quando chega a sua vez, o porteiro (na verdade peão do gado bípede), mal humorado diz “tem que pegar a autorização na bilheteria” e desconsidera o rabisco. A vítima caminha até a bilheteria, consegue validar o ingresso e finalmente entra no cinema...onde está sente um pouco de calor, provavelmente porque o ar condicionado está com problemas (mentira, é economia de luz – 2 -.) Parece até prefeitura.

Por isso é melhor ficar em casa e assistir Netflix, ou ir na casa de amigos. Para começar, não há estresse. Depois, a economia. Nessa odisseia descrita acima a vítima desembolsou, no total: consumo de saúde – imensurável; R$ 31,00 do ingresso, mais R$ 12,00 do estacionamento, mais R$ 15,00 da pipoca, mais R$7,00 da gasolina. Total? R$ 65,00.

Um mês de Netflix (isso mesmo, um mês!) custa em torno de R$ 28,00 com um invejável cardápio de filmes e séries, sem estacionamento, aporrinhação, gente mal humorada, ar condicionado “pifado”, etc. Fora o Netflix, o sistema de aluguel de filmes do You Tube é bom e está disponível para TVs com aceso a internet. Lá você assiste, por exemplo “O Regresso” pagando R$ 10,00, por 24 horas, “Elvis & Nixon”, R$ 14,00, enfim, um gigantesco catálogo de filmes.

Não é só ir ao cinema que virou rali. Em qualquer grande casa de shows no Rio paga-se em torno de R$ 100,00 para assistir pelo telão, já que lá de trás não se enxerga (e ouve) nada. Mas quem quiser desembolsar R$ 250,00 ou R$ 300,00 assiste lá na frente, onde muita gente fica batendo papo de costas para o artista no palco e teclando no whatsapp. Fora estacionamento, gasolina, provável congestionamento.

É por isso tudo que tirar as pessoas de casa em tempos de “molambalização” dos caríssimos serviços está cada vez mais difícil. E, diz a lenda, a tendência e piorar.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Velhos no Brasil

Os velhos no Brasil são desprezados. Por todos. O poder público, sociedade em geral, muitas famílias tratam a pessoa que chega ao epílogo da vida como um traste inútil. Além das dificuldades físicas inerentes a própria idade, os velhos, em geral, tem que sobreviver com uma aposentadoria humilhante, seu plano de saúde é o mais caro, os carros nas ruas não o respeitam, muitas famílias o veem como estorvo. Em muitos casos, filhos, netos, bisnetos o ignoram. No fim da vida o velho, que a culpa judaico cristã brasileira prefere chamar de idoso ou, pior, da terceira idade (cinismo), ganha como “prêmio” um tratamento vil.

Vemos todo o tipo de campanha por aí. Gente aguerrida defende crianças, adolescentes, as minorias e tudo mais, mas quase ninguém lembra dele, do velho, daquele que nasceu, lutou, teve filhos, criou, educou, pagou impostos, trabalhou muito e no final se torna lixo numa sociedade egoísta, egocêntrica, ególatra em todos os níveis.

Velhos sofrem de rejeição afetiva nas bilionárias mansões, coberturas e afins do país. Velhos sofrem de rejeição afetiva em favelas, muquifos. Se há um lamentável elo que une ricos e pobres no Brasil é seu desprezo em relação aos velhos.

Em geral, os governos nada (ou pouco) fazem pelos velhos porque eles não dão votos, não geram impostos. Uma espécie de “sucata humana” que é vista como um traste no meio da casa atrapalhando o caminho, ou, a toda hora passando na frente da televisão.

A covardia contra o velho está na essência da alma brasileira, terra que cultua a eterna juventude. Todos os dias lemos citações histéricas do tipo “Fulano, o mais jovem político...”, Beltrana, a mais jovem chef de cozinha”, e por aí vai, como se ser jovem fosse um ato heroico. Velhos? Só aparecem quando há uma grande tragédia.

Em muitos países o velho é tratado com respeito. Os índios o veem como sábio, preparado para aconselhar, apontar, sugerir. Entre os esquimós e aborígenes, idem. No entanto, entre os civilizados do Brasil, o velho não passa de um imprestável utensílio.



domingo, 6 de agosto de 2017

Memórias do "sexto Beatle"


Geoff Emerick
 Geoff Emerick é um inglês de 71 anos. Aos 16 anos, começou a trabalhar como assistente de engenharia de som nos estúdios Abbey Road e, ao lado de George Martin, o quinto Beatle, ele gravou a banda do parto até a pá de cal. Em “Revolver” passou a braço direito de Martin como engenheiro de som e foi promovido a sexto Beatle.

Seu despretensioso livro “Here, There and Everywhere – Minha vida gravando os Beatles”, lançado recentemente no Brasil, é um valioso testemunho de um homem que trabalhou em todas as gravações da maior banda da história do rock e viu e ouviu de tudo.

Com o fim do grupo, em 1970, ele fez a engenharia de som para álbuns antológicos como “Band of the Run”, do Wings (gravações na caótica, árida e infernalmente quente Lagos, na Nigéria, foram impressionantes), mas trabalhou também com Elvis CostelloSupertramp, Bad Finger, Cheap TrickNazarethChris BellSplit EnzTrevor RabinNick HeywardBig CountryGentle GiantMahavishnu OrchestraUltravoxMatthew FisherKate Bush, Jeff Beck e outros.

Lógico que os pesquisadores de Beatles e beatlemaníacos em geral já sabem de tudo, mas Geoff conta, por exemplo, que os Beatles tinham nojo, ódio, horror dos cultuados estúdios Abbey Road, segundo ele gigantescos caixotes com luz industrial, cheios de mofo, desconfortáveis, tecnicamente ultrapassados e de um baixo astral generalizado. Sua dona, a EMI, era um paquiderme muito parecido com as empresas estatais brasileiras. Cheia de regras, normas, regulamentos, mas andava se arrastando. O ódio dos Beatles foi tanto que sempre que podiam eles iam gravar no Trident ou no Olympic. O autor do livro diz que Abbey Road simboliza a pancadaria entre os quatro Beatles.

Por exemplo, o álbum “Abbey Road” ia se chamar “Everest”, mas o custo de levar a banda até o monte para fazer as fotos de capa e divulgação tornou o nome inviável. Foi quando Ringo Starr sugeriu algo do tipo “bota o nome disso aqui mesmo”, e nasceu o título Abbey Road. A sessão de fotos para a capa, ícone da cultura pop, durou 20 minutos. Como os músicos mal se falavam (Paul e George estavam a beira da porradaria) fizeram a foto ali mesmo, na rua. O fotógrafo Ian Macmillan foi chamado e eles saíram de repente num dia de sol. Muito simples, nada planejado.

Desde as primeiras gravações a relação entre Paul e George não era boa. Geoff narra que o guitarrista não sabia tocar direito e, por isso, Paul o substituiu em vários momentos. George ficou tão infeliz que passou a ser o último a chegar e primeiro a ir embora das gravações. Ele praticamente não participou de “Sgt. Pepper”. A tal ponto que quando John, Paul e Ringo terminaram a exaustiva gravação de “A Day in the Life”, no dia seguinte Lennon disse para Harrison “parabéns, George. Você perdeu a gravação de nossa melhor música”. O autor do livro diz que George viu nos instrumentos indianos uma fuga, uma forma de esconder sua condição de músico menor, mas reconhece que a partir do “Álbum Branco” ele amadureceu, evoluiu e se tornou um dos grandes guitarristas do mundo.

Por falar em “Album Branco”, o que não falta é bizarrice. Para não se verem, os Beatles gravaram em três estúdios da Abbey Road, cada um em um. Ringo ficava alternando. Poucas semanas antes, John e Yoko sofreram um grave acidente de carro na Escócia e quando chegou, o casal quis colocar a carcaça do carro destruído em frente a sua casa como uma escultura.

Geoff Emerick lembra que numa tarde, vários homens de macacão apareceram no estúdio um, onde os Beatles gravavam o “Álbum Branco”. Ninguém entendeu quando os homens transportaram um grande objeto embrulhado que acharam ser um piano. No uniforme deles constava a logomarca da 'Harrods', uma das maiores lojas de departamento do mundo onde se encontra de tudo, de picanha fatiada a calota de Kombi. Os homens desembrulharam uma...cama. Cama para Yoko Ono repousar por causa do acidente, colocada no estúdio. Como não desgrudava de John (Geoff conta que iam até ao banheiro juntos), ela recebia amigos de um lado enquanto os Beatles tentavam gravar do outro. O tormento Yoko Ono tem dezenas de episódios inacreditáveis.

Lennon estava viciado em heroína no “Álbum Branco”. Tanto que depois da gravação foi se tratar e durante o tratamento compôs “Cold Turkey”, apelido das crises de abstinência sem a heroína:

“(...) A febre é alta
Não consigo ver nenhum futuro
Não consigo ver nenhum céu
(...) Eu queria estar morto
(...) Meu corpo está doendo
(...) Não consigo ver corpo algum
(...) Me deixe em paz
(...) Meus olhos estão abertos
(...) Não consigo dormir
(...) Trinta e seis horas
Rolando de dor
Rezando para alguém
Me liberte novamente
(...) Oh, eu serei um bom garoto
Por favor, me faça bem
Prometo-lhe qualquer coisa
Me tire deste inferno

No meio das gravações do “Álbum Branco”, diante de tanto azedume, baixarias e falta de respeito entre os Beatles, Geoff Emerick se demitiu do disco. O único que foi tentar demovê-lo foi John, que quase implorou, falando da importância do engenheiro para a banda desde o início, etc. George Martin também tentou argumentar, mas não adiantou. Era uma quarta-feira e ele foi pescar. Só retornou a EMI na segunda feira para trabalhar com outros artistas. Muitos meses depois para salvar “Let it Be” e gravar “Abbey Road”. De vez em quando era chamado para resolver algum problema nas gravações de “Yellow Submarine”.

“Let it Be”. A EMI contratou Glyn Johns para produzir algumas faixas, mas não gostaram e ele foi demitido. George Martin, cada vez mais acuado, cansou de tentar apagar os incêndios. Foram gravar no estúdio Trident e semanas depois, quando ouviram as gravações em Abbey Road o som estava péssimo. Um desesperado Paul McCartney caçou Geoff Emerick que disse que muita coisa teria que ser refeita. Chamaram Phil Spector que tentou, tentou mas acabou arquivando “Let it Be” numa prateleira. Partiram para a gravação de “Abbey Road”, mas já sem Lennon. Geoff voltou a engenharia de som e salvou “Let it Be”, que acabou saindo antes de Abbey Road.

O livro traz, também, muitas informações técnicas importantes, pelo menos para mim. Por exemplo, antes de começar a gravar “Revolver” Geoff Emerick ele sugeriu que Paul McCarteney substituíssem seu baixo alemão Hofner, aquele com formato de violino, por um Rickenbacker, bem mais potente. Macca adorou e passou a usar o Backer nas gravações a partir dali. Ele diz que o empenho quase neurótico de Paul McCartney e o som do Rickenbacker fizeram com que os Beatles tivessem o melhor som de baixo em gravações de discos de rock.

O jornalismo chama de fonte primária pessoas que vivenciaram fatos. A história de Geoff Emerick é importante para quem gosta, conhece e até é fanático pelos Beatles. Um livro que testemunha a intimidade da banda genial que ajudou a mudar a história do Século 20.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Imbecilato

Desde a infância sou viciado em notícias, artigos, entrevistas. Atualmente, alguns jornais que pago para ler estão tomados de imbecis. Imbecis que, dizem as boas línguas, escrevem de graça e (em alguns casos) pagam para publicar o que cometem já que vale tudo para se exibir. Não são jornalistas, nem literatos, nem intelectuais, são apenas bípedes desinibidos que se dizem artistas aqui e ali, se dizem cantores acolá, se dizem “descolados”, mas na verdade não passam de chulos arrivistas.

Eu ia escrever “tudo bem”, mas tudo bem é o cacete. Meu dinheiro está no meio disso, já que pago por cada edição dos jornais que consumo. Jornais que já publicaram Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues, João Saldanha e dezenas e dezenas de “notáveis”, hoje abrem as páginas (e pernas) para um vazio cultural tétrico.

O imbecilato ocupa espaços nobres nos jornais que assino (em breve terei que pular fora), onde o óbvio uivante é a norma. Um dia desses uma arrivista das tortas letras, cometendo uma coluna, disse que faz terapia há muito tempo mas não sabe se o terapeuta é freudiano. Como assim? Não sabe? Ela pratica auto flagelação pública e vomita sua pequena burguesia na cara de quem paga uma grana por ano para ter em casa o jornal onde ela evacua seus complexos. Chegou a chamar o presidente da república de coronel oligarca só porque batizou o filho com o seu nome (?????).

Um outro imbecil ocupou o mesmo espaço, num outro dia, para explicar ao leitor o que é um babaca. Seria mais fácil se, em vez de tentar explicar, o estafeta estampasse as duas prováveis linhas de seu currículo porque, em se tratando de babaca, poucas vezes vi um de tamanho porte.

E tem cantantes que reclamam que alguém acusou disso e daquilo, quando, na verdade, lugar de cantante não é numa página de jornal, vociferando asneiras e saindo na mão usando o espelho da penteadeira como inspiração.

Chove desinibidos, desinibidas, arrivistas, teletubes travestidos de literatos de baixos teores para. Um chamando o outro de genial, imbecilizando toscamente a já combalida mídia impressa e digital.


Com o nosso dinheiro é fácil.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O poder do reconhecimento

Sabe aquele quadro pequeno pendurado na parede com os dizeres “Funcionário do Mês” mais uma foto e um nome? Cada vez mais raro, vi um desses quando fui tomar um mate, semana passada, nas imediações da rua do Ouvidor. Coincidentemente o tal funcionário do mês foi o que me atendeu. Dei parabéns, o cara ficou meio sem jeito e tal, agradeceu e seguiu trabalhando, sorriso estampado na cara.

A espécie humana não sobrevive sem reconhecimento. No início dos anos 70, um colega entrevistou o assaltante Lúcio Flávio Vilar Lirio na penitenciária e perguntou o que ele sentia ao ser considerado pela polícia o inimigo público número um. Lúcio Flávio respondeu que se sentia muito bem porque era mais uma demonstração do cagaço que a polícia tinha dele, o que “para mim é um grande reconhecimento”. E, segundo o colega, esboçou um leve sorriso.

Vamos supor que o ser humano tenha 60% de defeitos e 40% de qualidades. Na melhor das hipóteses. Se pouca gente aceita a chamada “crítica construtiva” a coisa fica caótica quando se vê valorizados apenas os 60% podres.

A mulher se submete a uma dieta de meses, veste uma bela e sensualíssima roupa, corta o cabelo, estreia um par de sapatos, usa um batom de cor ousada para encontrar o sujeito. Ele chega e comenta que detesta o perfume que ela usa. Só isso. Não diz mais nada, absolutamente nada e leva um pé na bunda tempos depois.

Cachorros adestrados quando fazem direito uma evolução ganham reconhecimento e biscoitos. Golfinhos e focas ganham reconhecimento e sardinhas. Por que com a raça humana seria diferente?

Medalhas, troféus, diplomas de “Honra ao Mérito” e dezenas de outros símbolos mostram que o ser humano quando reconhecido abertamente rende muito mais. Autoestima turbinada. Parece óbvio mas para muita gente não é. Você aí, leitor, há quanto tempo não recebe o reconhecimento de uma pessoa significativa em sua vida? 

Pior: você nota que ao longo do tempo essa mesma pessoa só o critica, só vê os 60% citados lá em cima, só enxerga ônus e ignora os bônus? Dá vontade de deletar? 

Pois então, delete.



segunda-feira, 31 de julho de 2017

Holandeses do Focus vão tocar no Municipal de Niterói em setembro






Anote na agenda: dia 14 de setembro (quinta-feira), as 8 da noite o supergrupo holandês de rock progressivo Focus vai tocar no Teatro Municipal de Niterói, dentro de sua turnê mundial. A frente da atual formação, continua o fundador da banda, tecladista, flautista e cantor Thijs Van Leer e na bateria Pierre van der Linden, da formação clássica de 1971 em diante. Nas guitarras, Menno Gootjes e no baixo Udo Pannekeet. No repertório, clássicos como Hocus Pocus, Sylvia, Eruption, Focus 7 e Anonymus II.

Num show sempre eletrizante, Focus mistura vários estilos dentro do rock progressivo, entre eles a música fusion, também conhecida como jazz rock. Foi fundada em Amsterdã em 1969 por Thijs van Leer e até hoje está no topo. Suas composições instrumentais e improvisações mantém muitas influências da música clássica. Um exemplo é a referência à ópera de Monteverdi em "Eruption", faixa do álbum Moving Waves. Outra demonstração está na referência a Johann Sebastian Bach em "Carnival Fugue", do álbum Focus 3, ou ainda das referências ao Renascimento de "Anonymus II".

O show terá duas horas de duração e promete sacudir os esqueletos. A pegada roqueira dos holandeses é forte e os delírios de Van Leer na flauta misturados aos demolidores solos de bateria de Van der Linden são arrematados pela guitarra precisa e também anárquica de Gootjes. Um show sem firulas.
Objetivo, reto, inesquecível.

Os ingressos já estão a venda na bilheteria do Teatro ou aqui: 


Mais informações, telefone (21) 2620-1624.