quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Brasil, o seu tempo acabou

Brasil, não tenho mais tempo. O meu tempo passa cada vez mais veloz entre os ponteiros de segundos. Meus impostos, taxas, tarifas, contribuições, óbulos, encargos, ônus estão rigorosamente em dia, bem como todas (TODAS) as minhas obrigações morais e cívicas para contigo.
Mame à vontade, Brasil. O sangue é teu.

Brasil, o meu tempo voa e não pode se dar ao luxo de contemplar o seu, lento, redundante, atolado, preguiçoso, corrupto, venal. Meu tempo é para o trabalho, para a saúde, para o amor, já que não tive tempo de pular fora antes. Se fosse antes, estaria longe, em outro lugar, sorvendo outros tempos. Mas você não me deu tempo, Brasil. Tive que ficar.

Brasil, nas ruas há sempre carnavais, micaretas, grevistas vagabundos sustentados por nós. Hoje haverá mais, no interior e nas capitais, mas não irei ver porque não quero. Não quero e não tenho tempo. Tenho muito trabalho a fazer, apesar de você, tenho muita história para contar, apesar de você, tenho muito mar para abraçar e beijar, apesar de você.


Brasil, divirta-se, mas não me convide. Você tentou, mas não roubou o meu tempo. Pelo menos ele, não. E não me chame para apartar briga de ratos. Não me presto a isso.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Pessimismo e otimismo

As redes socais, cada vez mais anti sociais, estão muito mal humoradas e pessimistas. Claro que os tempos estão instáveis, mas se todo mundo, em todos os tempos, fosse pessimista 24 horas por dia ninguém teria nascido. A começar por nós. O pessimismo crônico, assim como o mau humor, em geral são sintomas clássicos (eu diria óbvios) de depressão e ansiedade aguda que, de cara, levam diretamente a inapetência existencial.

Não é normal ser pessimista o tempo todo. Não é normal ser otimista o tempo todo. A leve e harmônica oscilação de humor rege a saúde do nosso sistema nervoso, ensina a boa medicina. Os negativistas, vulgo urubus, tem no pessimismo o início, o fim e o meio. O lema deles é o famigerado “nada será como antes” (cusp! saudosismo) e reclamar de tudo é a base. Reclamam do calor, do frio, da chuva, da falta de chuva, do trabalho, da falta de trabalho, do amor, do desamor, do céu, do inferno sem perceber sua palpável infelicidade. Sem que ninguém diga claramente “meu chapa, vá se tratar!”, porque ninguém está a fim de se aporrinhar. E recomendar um médico para um sujeito nesse estado pode parecer ofensa.

O otimismo comedido é um exercício, dizem os sábios. Viver com esperança (favor não confundir com a agoniante expectativa) é saudável. Enxergar a luz no fim do túnel como porta de saída (e não de entrada) é uma ginástica mental/emocional fundamental. Mesmo que ao nosso lado esteja um Hardy Har Har (personagem do desenho animado lá no alto) dizendo que a luz pode ser de um trem vindo ao contrário.

Aí ferrou.

domingo, 15 de outubro de 2017

Stanley Clarke, o homem que transforma contrabaixo em guitarra



Stanley Clarke é um monstro sagrado, o melhor baixista em atividade no planeta. Assisti duas vezes, primeira fila e saí desnorteado. Toca jazz tradicional com o chamado “baixo de pau” (baixo acústico), rock, música fusion, R&B e sua impressionante agilidade e precisão transformam o contrabaixo principal em guitarra solo.

Ouça nessas duas músicas. Ele toca o baixo agudo que sola e outros três que fazem médios, graves, base etc.  É inacreditável mas o instrumento que sola é um baixo Alembic modelo Stanley Clarke (é mole?) de quatro cordas. Com saudade, há uma semana ouço as duas, emendadas (no álbum são emendadas), direto:




Clarke nasceu em 1951 na Filadélfia. Aprendeu a tocar baixo por acidente no colégio, quando chegou atrasado no dia em que seriam distribuídos instrumentos musicais para o aprendizado dos alunos, e o único que sobrou foi o baixo acústico.

Em 1971, mudou-se para Nova York onde começou a trabalhar com muitos músicos famosos como Horace Silver, Art Blakey, Dexter Gordon, Gato Barbieri, Joe Henderson, Chick Corea, Pharoah Sanders, Gil Evans e Stan Getz.

Durante os anos 70, Clarke tocou na banda Return to Forever, liderada pelo pianista e tecladista Chick Corea. O Return tornou-se uma das mais importantes bandas de fusion jazz e seus vários álbuns aplaudidos de pé pelo público e crítica. Nessa época começou sua carreira solo, como fez o colega Jaco Pastorius. Os álbuns mais populares do baixista são Stanley Clarke (1974), Journey to Love (1975), e School Days (1976).

Ele formou o Animal Logic com o baterista Stewart Copeland,(mais tarde integrante do The Police), e a compositora e vocalista Deborah Holland. Outros projetos importantes com outros músicos: Jeff Beck, (1979) Ron Wood's New Barbarians, (1981, 1983, 1990) Clarke/Duke Project with George Duke, (1984) Miroslav Vitouš,[2] (1989) Animal Logic Stewart Copeland, (1993–94), um grupo Larry Carlton, Billy Cobham, Najee & Deron Johnson, (1995) The Rite of Strings with Jean-Luc Ponty and Al Di Meola and (1999) e Vertu’ com Lenny White and Richie Kotzen.

Mesmo em turnê com sua banda Clarke está sempre tocando nas turnês de seus colegas: em 2005, com Béla Fleck e Jean-Luc Ponty, ganhou o Jammy Award de "Turnê do Ano"; em 2006, pela primeira vez em quinze anos, Stanley e seu amigo George Duke saíram em turnês por mais de 40 cidades, alcançando o Top 20 com a música "Sweet Baby"; em 2007, fez vários shows nos EUA, Europa e América do Sul com Al DiMeola e Jean-Luc Ponty. Gravou a faixa "Hey Hey" no álbum Pipes of Peace (1983) de Paul McCartney.






sábado, 14 de outubro de 2017

"O Formidável", um grande filme, desnuda o genial Jean - Luc Godard em sua guinada de 1967

O diretor Michel Hazanavicius

Fui a Sessão de Gala do filme “O Formidável”, com a presença do diretor Michel Hazanavicius, no Reserva Cultural de Niterói que participa do Festival do Rio. Depois da sessão ele conversou com a plateia que super lotou a sala de exibição.

“O Formidável” é um filme brilhante, instigante, extremamente bem produzido (destaque para a direção de arte e fotografia) e dirigido. Para quem gosta de cinema é absolutamente imperdível. Ganhador do Oscar de melhor diretor por “O Artista”, em 2012, Hazanacicius mais uma vez fez um grande filme. É protagonizado por Louis Garrel e mostra um recorte da biografia do grande diretor Jean-Luc Godard em 1967, baseada no livro de sua ex-mulher e musa Anne Wiazemsky (vivida por Stacy Martin), que, por sinal, morreu no último dia 5, aos 70 anos.

“O Formidável” recria o período entre 1967 e 1970 no qual Godard lança seu tratado político mais feroz nas telas, o longa “A Chinesa”, e na sequência, junta esforços ao grupo militante Dziga Vertov. Sua meta é criar um cinema militante. Ao mesmo tempo, ele vive uma tórrida e neurótica paixão por uma atriz, Anne e no auge do romance, Godard se envolve nos protestos de maio de 1968 e tem sua obra questionada pela ala de esquerda mais combativa. Sua resposta é o radicalismo, em seus filmes e em sua vida. Numa entrevista ao site Omelete, o diretor diz que "a recriação dos protestos de 1968 é o que de mais documental eu filmei. Ali, o que nós temos é um documento da História".

Aqui, outros trechos da entrevista:

"Demorei a estabelecer conexões entre meus filmes, mas a história de Godard me fez notar que estou sempre correndo atrás de personagens desconectados, sem lugar estabelecido na lógica do mundo. A diferença é que O Artista falava de um deslocado sem grandes virtudes. Como seu cãozinho era fofo, torcíamos por ele. Com Godard é diferente: é um criador transgressor.

"Venho de uma geração que rachou opiniões em relação a Godard: parte tem respeito e reverência por ele, parte encara mal sua obra, por se opor à lógica da Nouvelle Vague, que ele representa. Meu cuidado no filme era não me deixar julgar seus atos. Ele pode parecer um babaca às vezes, mas isso todos nós podemos parecer. Mas não se pode negar que estamos diante de um homem que desafiou tabus".

"De uma certa forma, há uma dimensão heroica na atitude militante de Godard em seu opor, de maneira solitária, à máquina do cinema como indústria. Uso storyboard pra poder desenhar todas as cenas que pretendo rodar deixando pro set descoberta do que há de específico em cada ator. Neste filme, tinha um diferencial: levei pro cenário objetos com as cores mais usadas nos filmes de Godard, que são o amarelo, o azul e o vermelho pra trazer algo de godardiano à cena".






sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Pimenta no lombo dos outros é Fanta Uva

Quando chega outubro a inclemência acende o maçarico anunciando o apogeu da primavera que traz no bojo o bafo quente na nuca, cupins de lâmpada, tanajuras, o canto deprimente das cigarras, arrastões nas praias.

Para alegria do governo e seus comparsas (empresas de energia elétrica) é hora de bandeira vermelha na conta de luz, mais uma realização do governo Dilma. É nessa soleira que boa parte dos brasileiros em sua crônica bovinização contemplativa liga ventilador e ar condicionado para conseguir dormir, viver e morrer numa grana quando a conta de luz chegar. Estou escrevendo num ônibus com ar condicionado que cruza boa parte de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde o trânsito começa a se transformar na lenta lacraia do final do dia.

O motorista mantém a temperatura em 20 graus (que delicia) apesar de alguns passageiros (masoquistas) pedirem mais calor. “Não posso, são ordens da empresa” e como hoje acordei meio enviesado me meti na conversa e acrescentei “a temperatura está ótima; o senhor deveria ter escolhido um ônibus sem ar ou então trazer um casaco”. O cara olhou para mim, ia falar qualquer coisa, mas desistiu.

Lá fora de cada 10 carros que vejo, nove tem ar condicionado. Lembro do amigo Reginaldo que ano passado trocou um carro sem ar com zaralhadas de cavalos de potência por um 1.0 com ar. Ele me disse que “cansei de padecer, fingir que esse flagelo do calor é oba-oba, chuva suor e cerveja”.

Com o desmatamento generalizado a temperatura subiu ainda mais e tornou-se insuportável para muitos. Exceção para a indústria da cerveja, filtro solar, e de babaquices em geral. Lembro que quando fui fazer vestibular (que por si só já era uma merda), acordei as 6 e meia da manhã e encarei um calor demolidor para chegar ao local da prova, que não tinha ar condicionado. Acordar cedo já é um suplício, com calor vira humilhação e com vestibular é fim do mundo.

Leio que no Rio somente 30% da frota de ônibus tem ar condicionado. Como assim? Imagine ônibus sem calefação em Moscou, Londres, Paris, em pleno inverno? Morreria todo mundo. Aí vão dizer, “mas aqui não morre”. Não morre é o cacete. O calor traz dengue, zika, giárdia, febre maculosa, malária, conjuntivite, febre amarela, dengue, chikungunya, etc. Ou seja, morre gente pra cacete. Especialmente nos últimos anos, quando o país foi atirado no esgoto.

Essa transição chamada primavera (na verdade um verão travestido de floricultura) gera aporrinhações extras. Por exemplo, os comerciantes espertos ligam o ar condicionado no mínimo. Os modelos split indicam a temperatura desejada e não a temperatura ambiente.   

Chegamos num restaurante e o ar marca 23 graus, mas o calor é forte, suamos em bicas, reclamamos com o garçom que logo aponta para os 23 graus. Não chega a rolar bate boca, mas ele sabe que está errado e quando insistimos ele baixa a temperatura.

Já decepcionistas e atendentes de consultórios e escritórios, quase todas, sei lá porque são friorentas. Passam o dia sentadas ali, segundo elas “na ponta do iceberg” e quando chegamos está um forno. Pedimos para baixar a temperatura e elas, sempre de má vontade, resistem com o mesmo argumento: “poxa, mas está marcando 24 graus”. Fazer o que?

Pimenta no lombo dos outros é chica bom.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Santa infância

                                                                           Nove anos                                                                           
                                               Com Catherine, praia de Itaipu, 2005
Muita gente postando fotos dos tempos de criança no Facebook em homenagem a 12 de outubro. Não sei explicar (será que não sei?), mas não conseguia me mobilizar, correr atrás de fotos minhas quando era pequeno para colocar lá também. Mas hoje decidi postar. Uma foto minha e outra de 2005 com minha sobrinha Catherine (então com cinco anos) na abençoada praia de Itaipu.

Cuidei e cuido mal de minha história pessoal, que está espalhada por aí e, sinceramente, nessas horas gostaria de ser mais cartesiano, mais “marcha soldado”, mais organizado, ter livros, cadernos com toda a minha história, meus milhares de textos publicados, mas não. O que vejo é uma zona, uma baderna, um emaranhado de coisas espalhadas, perdidas, sumidas.

Minha infância. Lembro muito bem dela porque é na infância que a felicidade plena, absoluta, deixa suas pegadas tatuadas em nossa alma, já que a infância é uma fantasia concreta. Acho que só na infância temos acesso temporário a felicidade plena porque vivíamos nadando no lúdico, nos sonhos, na ingenuidade, na alienação natural e sem o adestramento que vem mais tarde.

Minha infância foi em Angra dos Reis. Meu pai era oficial de Marinha e saímos daqui para morar na vila do Colégio Naval quando eu tinha uns três ou quatro anos. E lá vivi até quase nove.

Meu primeiro colégio ficava no centro de Angra e se chamava “Santa Infância”. Até recentemente tinha o diploma emoldurado em minha mesa de trabalho, mas ele também sumiu. Minha infância está guardada em minhas memórias e envolvem muitos passarinhos, em especial coleirinhos, tiês-sangue, sabiás, muito mar, pedras, siris, caranguejos e ele, o céu.

Ficava horas e mais horas deitado numa pedra de barriga para cima olhando o céu, vendo os jatos passarem muito alto riscando linhas retas e brancas naquele azul profundo. A noite, os jatos davam lugar aos satélites, que como estrelas minúsculas cruzavam o céu. Numa dessas sessões de contemplação lembro bem do meu primeiro, digamos, questionamento filosófico. Em pensamento perguntei para mim mesmo “será que sou feliz?”. Muitos anos depois, entregue a psicanálise (viva ela!), essa frase foi trabalhada exaustivamente. Trabalhada, trabalhada, trabalhada. Em resumo, minha infância foi tão feliz que custei a me desapegar.

Um dia, no final de uma sessão, disse para a minha querida analista “minha infância ficou em Angra. Mora lá, perambula por lá.” Foi no dia de um amanhecer de verão quando minha família deixou o Colégio Naval rumo a chamada civilização. Mudamos para Niterói. Lembro que quando saíamos de carro o “meu” coleirinho predileto cantava forte no alto de um ingazeiro enquanto o sol dava sinais de sua presença. Foi a última imagem de minha infância: o sol nascendo, o ingazeiro e o coleirinho. Minha santa infância acabava ali.

O lado B do disco da vida começou a tocar quando entrei em Niterói e tive que entender o que era um apartamento, sem mar, sem cipós, sem árvores, coleirinhos, ônibus, caminhões. Tive que engolir a insegurança pública, ir a colégio sendo levado por alguém, enfim, fui do Cosmos ao caos em poucos dias e fui apresentado a neurose.

Sofri muito, mas com o passar do tempo, dos ventos, dos amigos, grandes analistas e terapeutas e almas gêmeas como o meu pai (fiel e paciente depositário de minhas angústias), segui em frente e consegui guardar minha infância num precioso cofre sem chave, onde todos tem acesso porque não gosto de levar a vida cercado de senhas. O problema é que na sintomática balbúrdia da minha casa não sei onde o cofre foi parar.


Mas isso é outro assunto, para outras infâncias, para outros dias da criança de todos os tempos, céus, praias, serras e cantos de coleiros e sabiás.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O avanço da máfia do fundamentalismo religioso no Brasil

12 de outubro de 1995
12 de outubro de 1995
A máfia do fundamentalismo religioso, que se diz evangélico, tomou conta de todas as mídias. Incontáveis emissoras de rádios e TVs alugadas para igrejas que vendem milagres e arrastam a massa para o beija mão de seus políticos. Máfia tão poderosa que passa por cima da lei.

Concessões de canais de rádios e TVs não podem ser alugadas, mas a farra tomou conta. O aluguel de uma FM custa, para o dono da concessão (Rio e São Paulo) algo em torno de 500 mil reais por mês. O proprietário não gasta nada, não contrata ninguém, ele apenas aluga uma concessão pública e ouve o tilintar da grana caindo em sua conta bancária todo mês. Algo como se alguém alugasse praças, túneis, viadutos para terceiros.

Daria para acabar com a baderna, mas o Congresso Nacional também come na mão dos bispos com b minúsculo e similares, e a chamada “bancada evangélica” não para de crescer e avançar com uma absurda e desmedida fome de poder. Não há ética, não há fé genuína, não há honestidade. Há negociata, jogatina, tráfico de influência. As igrejas sérias (claro que elas existem e são muitas) acabam pagando uma conta que não é delas.

Uma amostra do poder dessa máfia foi a eleição de vários prefeitos em dezenas de cidades brasileiras, culminando com o escárnio que foi a vitória do bispo licenciado da igreja universal, Marcelo Crivella, que assumiu a Prefeitura do Rio. Um fenômeno que mostra o poder da universal, que reúne milhões de fies que são comandados pela bisparada como manada de descerebrados.

É impressionante a capacidade de organização da máfia do fundamentalismo religioso, em especial da igreja universal. A empresa aluga vários canais de TV e rádio com programas que fazem lavagem cerebral dia e a noite, além de ser dona da poderosa rede Record. A catequese do mal chega em todos os confins do país através de pastores que além do dízimo cobram votos.

Essa malta não quer pouco. Quer fabricar um presidente da república já que para eles o céu, além de não ser o limite, é a principal mercadoria do comércio. Adestrando pessoas, uma massa incalculável, fazem campanhas eleitorais em seus cultos visando apenas seus intere$$ses. Claro, o governo do Estado do Rio é o próximo golpe já que a eleição de Crivella abriu o caminho para a tigrada entrar.

Qual será o limite?

                                                                               

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eternas Capitanias Hereditárias

Meritocracia. Bela palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político em campanha. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente como hoje, especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política. Isso sem falarmos do noves fora, da corrupção galopante.

Na música chega a ser engraçado. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por amebas da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Mas em geral não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é bastante subjetiva, a coisa fica no zero a zero. No caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele, certamente, seria rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li tempos atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. 

Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filhinhoo de um amigão do pai da banda.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

Seria melancólico e não fosse escroto.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Hoje John Lennon faria 77 anos

Trailer
Hoje, 9 de outubro de 2017, John Lennon faria 77 anos. Não tenho ideia do que estaria fazendo. Será que alguém teria noção? Arrisco palpitar que ele ainda estaria na música porque a música sempre esteve nele.
Para lembrar Lennon (creio que ninguém esquece. Ou poucos esquecem dele) sugiro dois filmes que estão na Netflix. “O garoto de Liverpool” foi dirigido por Sam Taylor-Wood e mostra a a vida do músico antes dos Beatles.

Aborda a sua infância conturbada na casa de sua possesiva tia Mimi, até restabelecer o convívio com sua mãe Julia durante sua adolescência rebelde (Julia lutou muito para resgatar o filho), e conhecer seu grande amigo e parceiro de banda Paul McCartney e, também, George Harrison.

Foi a mãe que deu a ele o primeiro violão (chata pra cacete, coitada, a tia Mimi não queria deixá-lo tocar) que ele aprendeu a tocar com Paul e, assim, formaram The Quarrymen, banda de skiffle do colégio onde estudavam.

Acho o filme excelente, sem apelações, sem fricotes, sem estardalhaço. Os atores são o grande destaque: Aaron Johnson (John Lennon), Thomas Sangster (Paul McCartney) e Kristin Scott Thomas (Tia Mimi).   
                                                                                   
Steve Tilston e a carta de Lennon
Outro que merece ser visto é "Não Olhe para Trás". O cantor popular Steve Tilston é fanático por John Lennon. Em 1971, no começo da carreira, ele deu uma entrevista e o repórter perguntou se caso ele ficasse trilhardário o dinheiro mudaria a sua vida. Ele respondeu que sim. John Lennon leu a entrevista e escreveu uma carta para o cantor e pediu para o repórter entregar. Por várias razões, Steve Tilston só soube da carta 40 anos depois, quando a leu.

No filme "Não Olhe para Trás" (que está na Netflix) Tilston foi batizado de Danny Collins, magnificamente vivido por Al Pacino. A história é sobre o impacto da carta na vida do cantor, bilionário e só, 40 anos depois, cantando o que não queria cantar, escravo do sucesso formatado do mercado, vulgo esquemão, mainstream.

A carta de Lennon existiu, Danny Collins existe (Steve Tilston está com 66 anos) e a história inventada pelo diretor Dan Fogelman a partir dos fatos reais toca, sim. Especialmente porque acho (presumo, chuto) que a maioria das pessoas iria agir como ele a partir da descoberta do profundo toque que John Lennon dá.

Quando "No. 9 Dream" de Lennon começa a tocar senti uma erupção na garganta porque é uma dessas canções que me laça e atira num emaranhado de situações fortes, lúdicas, líricas, mas não atemporais. Mas o tema aqui é o filme, leve, profundo, musical, totalmente Lennon.

Filmaços.

                               

domingo, 8 de outubro de 2017

Zak Starkey: baterista do The Who é muito mais do que “o filho de Ringo Starr”

                                                        Aos 11 anos, com o padrinho Keith Moon, o "tio Keith"
                                                      Tocando no The Who
                                                      Com o pai (1)
                                                    Com o pai (2)
                                                      Com o pai (3)
                                                       Tocando no calçadão de Ipanema
O monumental show do The Who no Rock in Rio ainda ecoa em mim e, com certeza, nas almas de meu irmão Fernando Cesar e dos amigos André Valle e Liliane Yusim. Foi demais ver e ouvir ao vivo a banda que me capturou quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Eternizei aqueles momentos de emoção que quase viraram lágrimas num DVD que consegui, altíssima qualidade e que assistirei sempre.

Esse show confirmou a genialidade de Pete Townhend (guitarras, voz, teclados etc.) como o maior compositor/intelectual/pensador da humanidade contemporânea, lado a lado com Bob Dylan, opinião do amigo Maurício Valladares, que compartilho. Parte da história desse gigante, um garoto de 72 anos está aqui: https://www.allmusic.com/artist/pete-townshend-mn0000842351 . A íntegra de sua biografia, que ele mesmo escreveu, mora aqui: https://www.estantevirtual.com.br/b/pete-townshend/pete-townshend-a-autobiografia/751281022?q=Pete+Townshend

Todo mundo (???) sabe que o baterista do Who, Zak Starkey, é filho de Ringo Starr. Só que muito mais do que isso, Zak é hoje um dos melhores bateristas de rock do mundo, uma história que começou graças a seu padrinho, o fulminante e muito saudoso Keith Moon (o maior batera do universo). Fisguei esse pedaço de biografia:

Zak Richard Starkey (nascido em 13 de setembro de 1965) é baterista há mais de 30 anos. Ele toca e grava com a banda inglesa The Who desde 1996. Foi também do Oasis, e trabalhou com Johnny MarrPaul Weller, The Icicle WorksThe Waterboys , ASAPThe Lightning Seeds e John Entwistle (ex-baixista do Who, morto em 2002) . 

Nasceu em Londres, filho do baterista dos Beatles Ringo Starr e Maureen Starkey Tigrett , primeira esposa de Starr.  Aos oito anos Zak se interessou pela música quando o baterista Keith Moon, do The Who, que chamava de “tio Keith” lhe deu um kit de bateria Premier. Moon foi um dos amigos mais próximos de Ringo Starr e o padrinho de Starkey, e apesar de "nunca se sentarem juntos em um kit de bateria", ele disse que tocava com ele como menino, cada um na sua bateria. O kit de bateria dado por Moon foi mais tarde vendido na Sotheby's por doze mil libras e até hoje Zak se arrepende de ter vendido. 

Aos 10 anos decidiu aprender a tocar a bateria. Seu pai lhe deu apenas uma lição, mas depois o desencorajou. Não queria ver o filho envolvido com música. O garoto continuou tocando sozinho, acompanhando discos do The Who tentando aprender com o padrinho Keith Moon. Tinha 13 anos quando Moon morreu aos 31, de overdose, em seu apartamento em Londres. Zak não toca no assunto mas disse uma vez que “foi o dia mais triste de minha vida”.

Embora Ringo, hoje, elogie as habilidades de seu filho, diz que queria que o filho fosse advogado ou médico, da mesma maneira que Keith Richards quis que seu filho Marlon fosse contador ou advogado quando este insinuou que queria ser músico; Richards conta essa história em sua biografia “Vida”.

Não teve jeito e Ringo teve que entubar. Com 12 anos, Zak Starkey já estava se apresentando em pubs e depois foi membro de uma banda de garagem chamada "The Next".  Ele frequentou Highgate School até 1981, quando chutou o balde.

No início dos anos 1980 ele tocou no grupo Spencer Davis. Casou em 85 com Sarah Menikides. Sua filha Tatia tem 32 anos. Gravou uma versão musical de Wind in the Willows com Eddie Hardin . No mesmo ano (vejam vocês!) ele se juntou ao pai em Sun City por Artists United Against Apartheid . Ele substituiu Chris Sharrock como baterista no Icicle Works em 1989, deixando a banda um ano depois. Em 1989, tocou no álbum Silver and Gold , um trabalho solo lançado pelo guitarrista de Iron MaidenAdrian Smith .

Na década de 1990, Starkey trabalhou com Ringo Starr e His All-Starr Band e com o álbum solo baixista do Who, John Entwistle, chamado The Rock . Em 94 se juntou a Entwistle e outro membro do Who, Roger Daltrey , em uma turnê intitulada Daltrey Sings Townshend . Em 1996, Starkey deixou sua banda, Face, para trabalhar com o Who na turnê Quadrophenia . Ele foi louvado pela imprensa musical por seu talento, sem tentar imitar Keith Moon. Tanto Pete Townshend quanto Roger Daltrey dizem que Starkey é o melhor para a banda desde Keith Moon .

Hoje, Zak Starkey banha o planeta com o seu talento e humildade. Fala com qualquer um na rua e chegou a tocar no calçadão de Ipanema com os cariocas da Beach Combers, no dia seguinte ao show do Who.





sábado, 7 de outubro de 2017

Meu afeto não se encerra

Passei os dias recentes envolvido com o afeto profundo. Muito profundo, abissal. A cada lugar que fui, lembranças, muitas lembranças e um sentimento bem mais poderoso do que a saudade. É quando sentimos falta, muita falta, de pessoas e momentos que se eternizam no afeto profundo, lá embaixo, no abissal e mistérios inconsciente.

Óbvio, ninguém é igual. O ser humano é diferente até dele mesmo já que a coerência radical, prima bem próxima da teimosia, é eventualmente burra. Por isso, por essa livre e saudável ausência de isonomia afetiva, cada humano tem com o afeto uma relação distinta. Com o afeto profundo, essas diferenças se abrem como grandes abismos e muita gente não consegue lidar com ausências.

Acham que o choro é fraqueza, que o lamento é covardia dispensável, que o “estado blues” que nos acomete tem que ser massacrado, assassinado, deletado, arquivado, atirado no lixo, em nome de uma suposta superioridade existencial. Dizem que os ocidentais, em especial os pequeno-burgueses (também chamados de “coxinhas”), preferem ignorar o afeto profundo. É mais fácil? Não. É como um cheque pré-datado, daqueles que batem na conta lá na frente, com juros e correção.

Minhas noites na orla do Gragoatá foram especiais porque mergulhei no afeto profundo. Nó na garganta quando o cheiro do mar misturado ao de óleo combustível dos navios de guerra e dos zepelins que um dia surgiram na Boa Viagem me bateram na alma. Foi bom. Foi bom homenagear quem eu queria que fosse homenageado, através de lembranças, poemas, vento do litoral, o azul petróleo da noite.

O meu afeto não se encerra. Prefere transmutar como as auroras boreais. Nunca as mesmas. Sempre as mesmas. Assim é. Assim será.

Sempre.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Manual do Orgasmo

                                                             Óleo sobre tela. Robert  Lenkiewicz
No tempo que existia chuva aqui no sertão fluminense, estava numa livraria dando um tempo. Chovia pra cacete lá fora e o trânsito lembrava um enorme jacaré bêbado. Livraria vazia. Entra um casal. Ele calmo, jeitão de economista, óculos com lentes fundo de garrafa, meio mal humorado. Ela, agitada, colorida, enterrada numa calça legging rosa arrochada; mulher bonita, brincalhona, aparentemente fogosa.

O aguaceiro engordou na rua. Não gosto de andar na chuva porque toda hora enfiam um umbrella na minha cara. Umbrella é guarda-chuva em inglês...só pra contrariar. Brasileiro, apesar de tropical, convive muito mal com as tempestades, mas como até chuva roubaram aqui no sertão fluminense, tudo bem para eles.

Voltando ao casal, ia tudo muito bem até ela pedir um livro, subindo o tom da voz. “O senhor tem o Manual do Orgasmo?”. Até eu fiquei sem saber o que fazer. Quem estava embrulhando parou de embrulhar, quem estava empilhando livros parou de empilhar e eu que estava lendo orelhas parei de ler. Como todos prevíamos, o tal homem sereno virou um mamute enfurecido. Verde de ódio o sujeito levou a mulher para um canto e, tentando falar baixo, vociferou: “Precisava me humilhar? Vamos embora! Chega! Eu não aguento mais!”. E saíram no toró mesmo, soltando mísseis.

Não precisava ser daquela maneira. Muito se fala de alma feminina, dos cuidados que temos que ter com a mulher, com os desejos da mulher, com a liberdade da mulher, com a sensibilidade da mulher. Mas que fim levou a alma masculina?

Uma mulher que entra numa livraria com um marido daqueles e pede, vociferando, o “Manual do Orgasmo” está querendo barraco. Ou então pedindo. Alguém dirá “quem sabe, era meio burrinha”. Não! Não existe mulher burra. Se aquele mulheraço estivesse a fim de comprar o tal manual para usufruir teria ido sozinha, ou com amigas, irmãs, com o cachorro, tudo, menos com o marido. Uma sutil (?) maneira de dizer “benzinho, você está precisando afogar melhor o seu gansinho”. E o tal livro (acabei dando uma olhada) parece manual de funcionamento de freezer. A tomada é aqui, você liga ali, tem um botãozinho que faz isso, uma carrapeta que faz aquilo. Pior: sem garantia, sem Procon.

Por mais que as revoluções sociais, conceituais e etc e tal ensinem, o homem (pensando calado, nos inconfessáveis confins da madrugada) precisa ser enganado. Precisa achar que é o princípio, meio e fim na vida de uma mulher. Precisa ser herói, único, indispensável, insubstituível, eterno. O homem sabe que é mentira, mas essa mentira é sua fonte de sobrevivência. Em outras palavras, o homem é um imbecil. Numa boa, sem ofensas. Ah, mas as coisas mudaram, dirão alguns.  Mudaram coisa nenhuma. O homem ainda é o mesmo primata das cavernas, macho, guerreiro, predador de lobos. E pobre da mulher que cair no conto da evolução.

Um dos maiores confrontos do homem é o mistério que ronda o orgasmo da mulher, descoberta recentíssima, anos 1950/60. Está provado que a maioria dos homens vai para a cama muito mais interessados em fazer um belo workshop do que em sentir prazer. Cama é uma espécie de showroom desse tipo que, diz a lenda, estaria em extinção. Um leitor, certa vez, confidenciou num bar na estação das barcas: “Olha, não existe nada mais importante do que uma mulher derrubada, com aquela cara de bagaço, esgotada. É quando me sinto Hércules, Sansão, Homem Aranha”. Perguntei sobre a sua satisfação pessoal. O cara ri, bate com o copo de Genebra na mesa e arremessa: “Prazer eu sinto vendo o prazer dela”.

O homem é um golfinho de Miami sexual. Vai para a cama para ser aplaudido de pé, ou de joelhos. Condenada estará a mulher que, estonteada pela hipnose liberalista que de vez em quando bate em alguns, confessa que ele é mais um. Ele sabe. Todos sabem. Mas o homem que ser o único, the best, The Beatles naquele palco. Dentro dessa conjuntura imagine o que o tal sujeito da livraria sentiu quando a mulher, ao pedir o Manual do Orgasmo, declarou publicamente que seu macho falha, pifa, dá tilt, é mosca de padaria. Segundo o que ele achou. É aquela história de Bentinho que Machado de assis criou em “Dom Casmurro”. Toda a cornofobia que o livro passa é narrada pelo próprio Bentinho, mais ninguém.

Um conhecido separou-se da mulher há uns anos. Vivia reclamando que a vida estava ruim, que não a amava mais. Conversaram, muita choradeira e ponto final. Três meses após a separação ele me contou que tinha dormido na casa dela. “Saudade é fogo”, comentei. Mas ele rebateu: “Saudade nada. Soube que ela já estava saindo com outro sujeito, me bateu paranoia e eu fui lá. Consegui melar tudo”.

O pior é que, até hoje, quando a ex-mulher começa a roçar em outro ele vai lá e molesta só para não perder o lugar que ele mesmo não quis. E ainda diz que ´ex-mulher não existe`. Alma masculina é chumbo grosso.
Homem liberal só existe em anúncios de uísque. Machos, seres rudimentares e inferiores, nascem com várias escrituras de propriedade imaginárias na cabeça, e apesar da psicanálise, da cromoterapia, da neurolinguística, dos florais de Bach, da homeopatia, enfim, de toda a modernidade ainda somos os mesmos... e (por que não?) vivemos como nossos pais, como cantou Belchior nos anos 1970.

Haverá cura para o homem na sociedade contemporânea? Vai chegar o dia em que ele conseguirá viver sem honra ou mérito, ou sem honra, ou sem mérito? Será que um dia a mulher poderá comprar o Manual dos Orgasmo ao lado do marido como se estivesse comprando alpiste para o canário? Viveremos momentos onde ex-mulheres imediatas (segundo a literatura, a mulher se livra definitivamente de um homem num prazo que corresponde a 20% ao da convivência. Exemplo: conviveu 20 anos levará quatro para se livrar) poderão namorar livremente por aí? Não. Até segunda desordem o maior drama do homem não é viver sem mulher, é viver sem urras, elogios, “obrigado meu amo”.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Relógio Biológico

Duas e 14 da madrugada. Acordo mansamente, sem sobressaltos, apesar do pesadelo. Desde a adolescência só tenho pesadelos. Sonho bom? Raro. Bom, acordo as 2 e 14 como se fosse seis da manhã para um triatleta.

Rondo pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. Segundo o comercial, o tal travesseiro é um néctar de penas de ganso capaz de corrigir todos os problemas de coluna. O locutor diz que com esse travesseiro temos um sono “reparador”. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica aqui no Brasil, onde a natureza está em rápida extinção. Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta. Os caras são craques. Duas e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito.

Tem gente que fica muito angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é rotina, não sinto nada. Apenas uma certa impaciência, apesar da calma da madrugada, telefones mudos, celular calado, o famigerado whatsapp quieto. Tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de ante sala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição, que nem me lembro mais como é. Mas o fato das comunicações estarem a minha disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para, quem sabe, atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. 

As praias são lindas de qualquer jeito. Em Itaipu quando chove e o vento traz aquela bruma branca ela parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Indonésia. Já sob densa tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Já me chamaram de masoquista, que despendo muita energia, etc. Anos atrás experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, porra que depressão! Isso sim é masoquismo. No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, cobertor das Casas Pernambucanas.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma as aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio na Wikipédia que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite tem que se habituar com dois sons altamente depressivos: 1) Caminhão de leite; 2) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2) Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Jornalismo tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. 

Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite caia na gandaia, ou para a faculdade, que eram mais ou menos a mesma coisa. Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas da madrugada numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. 

Relógio biológico não é atômico e muito menos um Rolex automático. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso rever “Apocalypse Now Redux”, no DVD.