sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O castigo de Sísifo

Não tenho vocação para Sísifo e seu castigo, apesar de já ter dito aqui que o trabalho é a minha razão de viver. Sem exagero. Filei essa afirmação do jornalista Samuel Wainer, pai de meu saudoso amigo Samuca, cuja autobiografia se chama “Minha Razão de Viver” e continua a venda nas boas livrarias.

Estou pegando fôlego, alugando coragem para reler “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus, que foi um herói de minha pós-adolescência, se é que isso existe. Mas coragem não é uma casaca que você entra numa loja e aluga para usar num batizado, casamento, funeral. Coragem anda por aí.

Um dia desses saí de manhã para ajustar os óculos, que estavam escorregando pelo nariz. Fui a rua Gavião Peixoto, em Icaraí, onde em frente ao número 113 (funcionava uma loja da Ortobom), perto da Pereira da Silva, numa calçada muito estreita um “morador de rua” (definição dos politicamente corretos) e seus quatro cachorros raivosos e imundos decidiram se fixar, obrigando os pedestres a andarem pela rua. No auge de uma crise indefinida, pensando no castigo de Sísifo, provavelmente de cabeça baixa, não reparei que já estava chegando bem perto do homem e seus cães. Já ia desviar e andar pela rua quando o sujeito vociferou “vai pela rua!”. Não prestou.

Em questão de segundos reações subiram a mente como larva vulcânica: “vou chutar os cornos desse sujeito”; “que porra é essa de me mandar andar na rua?”; “pago IPTU e Guarda Municipal não existe”; “transformar cachorro em mendigo é sacanagem, vou soltar todos”. E por aí foi até uma senhora se aproximar do sujeito com um embrulho de comida e farta quantidade de ração para os cães. Ou seja, a culpa não é do cara mas dessa hipocrisia pequeno burguesa, etc etc etc.

Fui em frente lembrando que no horário da manhã meu humor fica indecifrável. Antes do meio dia, vejo uma cena dessas como “um malandro se aproveitando de cachorros para achacar a multidão”. Já por volta das 2 ou 3 horas da tarde, pode ser que eu veja a mesma cena como “cachorros sendo cuidados por um morador de rua, vítima dessa sociedade desumana e ególatra”.

Enquanto isso, no Maracanã...


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Eleição não tem Procon

A diferença é que o Brasil foi descoberto e não conquistado. Há quem diga que foi por acaso e que Cristóvão Colombo já havia avistado nosso litoral antes, mas passou batido. Ninguém sabe por que (?).

Conquista é uma coisa, descoberta é outra. Em 1808, movida pelo cagaço amplo, geral e irrestrito, a Corte portuguesa fez as malas e, se borrando toda, veio parar no Rio de Janeiro fugindo de Napoleão Bonaparte.
Dom João VI, imperador, preferiu o calor inclemente do Rio e a fedentina da cidade onde cães, bosta e degradação se misturavam, a ter que enfrentar os franceses.

A História conta que um dos primeiros atos de D. João foi criar o Banco do Brasil, seis meses após a sua chegada, para uso pessoal. O Banco nasceu como cofre particular de onde arrancava milhões e milhões todos os meses. A bordo das naus que partiram de Lisboa, escoltadas por navios ingleses (ingleses que, como pagamento, levaram toneladas - literalmente - de ouro das Minas Gerais), a fina flor da escrotália da elite portuguesa veio desaguar no Brasil, criado como lupanar. Jamais como nação.

Um país descoberto por acaso, um imperador encagaçado que veio parar aqui nas coxas, uma rainha que se chamava de "Louca", enfim, o Brasil deu no que deu, ou não deu no que deveria ter dado, tem o DNA da lambança.

Em suma, em 2014, 514 anos após a chegada de Cabral e 206 após o desembarque do cagão D. João VI e sua Corte larápia, o povo brasileiro foi as urnas e reelegeu (re!) o governo que aí está. Se alguém conseguir achar, por exemplo, uma ambulância do Samu verá nela a cara da saúde pública: faróis quebrados, sem sirene, maçanetas amarradas com barbante. Vi uma assim e o funcionário no banco do carona batia com a mão na porta para abrir caminho porque a sirene estava pifada. A buzina também.

A honestidade, a educação, o transporte, a segurança, o emprego, a esperança, o sonho, foi tudo ralo abaixo. Só que eleição não tem Procon. A maioria elegeu todos os bandidos e, democraticamente, teremos que aturar até 2018, quando, infelizmente, os mesmos serão reeleitos porque compram votos em todas as camadas sociais. Há muito eleitor corrupto nesse país.

Ainda sobre 2018,  vai dar..................................... presidente (preencha você mesmo).

Na cabeça.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Submergir

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para todos nós.

“Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garoa, nem a neve de Itatiaia.

Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmática com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosas. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica minúscula burguesia nas redes sociais do gênero “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. 
Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe crônico da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse.

Quem sabe submergir se esconde embaixo das montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos, longa autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. 
Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Qual a melhor opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.


Ou: em dia de temporal de faca não se bota a bunda na janela.


domingo, 10 de dezembro de 2017

Luiz Carlos Maciel (1938-2017)

Luiz Carlos Maciel morreu sábado, aos 79 anos. Falência múltipla dos órgãos. Guru da chamada contracultura, Maciel foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros e deixa uma marca profunda, uma presença rebelde no obtuso Brasil de hoje. Sua história é impressionante: Foi um dos fundadores do jornal O Pasquim, em 1969. Em 1970, juntamente com a maior parte da equipe do Pasquim, foi preso pelos militares e passou dois meses na Vila Militar, no Rio. Editou também o semanário contra cultural Flor do Mal, e foi diretor de redação da revista Rolling Stone a partir de 1972, quando a publicação era revolucionária. Maciel trabalhou durante vinte anos na Rede Globo como roteirista, redator, membro de grupos de criação de programas e de analista e orientador de roteiros. Em 1979 colaborou no semanário Enfim e, no ano seguinte, na revista Careta, ambos editados por Tarso de Castro. Em 1984 dirigiu o espetáculo musical Baby Gal, com a cantora Gal Costa, e a peça Flávia, cabeça, tronco e membros, de autoria de Millôr Fernandes. Em 1987 voltou a lecionar, principalmente cursos de roteiro. Em 1991 dirigiu as peças Boca molhada de paixão calada, de Leilah Assumpção, e Brida, de Paulo Coelho e até recentemente continuava trabalhando em inúmeros projetos. Ao Maciel, desejo o merecido descanso.
...

sábado, 9 de dezembro de 2017

Ano Novo: a diferença entre esperança e expectativa

Um abismo profundo separa o significado prático e filosófico de esperança e expectativa. Em 2015, Lobão levantou essa lebre num show. Começou a falar sobre o significado (e as significantes) das duas expressões, mas a falta de educação da ruidosa e irritante plateia não deixou o lobo uivar até o final do raciocínio.

Esperança é o possível, expectativa é o ideal, que não existe. Felizmente mantenho um pacto com a esperança desde a hora em que nasci. Com a expectativa, não. Relação zero.

A expectativa é parente próxima da ansiedade, da correria, da falta de ar, faz nossos pés molharem em Manaus quando ainda está chovendo em Porto Alegre. Já a esperança é centrada, amena, racional. A esperança faz projetos, enquanto a expectativa cisma.

Minha esperança em 2018 é grande, mas faço procuro fazer a minha parte. Não corro, não fujo, parto para cima com todas as forças disponíveis e depois, atento, aguardo a hora da colheita deixando o destino trabalhar. Pilhar o tempo todo, insistir, forçar a barra, chutar portas, em geral levam ao desespero sob o manto da expectativa. Em todos os setores da vida.

Há milhares de anos, os asiáticos costumam escrever que o silêncio é uma forma de comunicação. Pode até ser, mas não sou asiático, sou latino. Logo, não comunicou nada disse. Quando os sinais não veem (ou vão e não voltam), nada aconteceu. A esperança ensina que se não há declaração de amor ou declaração de guerra, não existe uma coisa nem outra. Cínica, a expectativa insiste que nem sempre os sentimentos emitem sinais. Como mente essa senhora, que eventualmente se traveste de tola.

Desde o dia em que Lobão tentou falar sobre expectativa e esperança no tal show, mas acabou atrapalhado por galinhas, codornas e barangas da plateia, o tema ficou perambulando por mim. O que acabou me levando ao passado, a uma longa tarde que passei na casa do Lobo quando ele morava no alto da Estrada das Canoas, em São Conrado, Rio. Falamos muito sobre o flagelo da culpa. Culpa, ela mesma, a canalha que não nos deixa olhar no espelho mesmo quando somos totalmente inocentes.

Gerar expectativas leva a culpa. Falar de esperança, não. A expectativa é volátil, enganadora e induz suas vítimas a impregnar a humanidade de promessas enquanto prepara uma desculpa para se livrar da situação. A esperança resolve, a expectativa tenta se livrar. Esperança leva a reflexão, a expectativa traz a insônia. Esperança não teme o início, o fim, o meio.

A escolha é nossa.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

37 anos sem John Lennon

                          A empresa norte-americana Phojoe em parceria com a Sachs Media Grooup usou designers e computadores de ponta para especular como Lennon estaria hoje.

Hoje é o 37º. Aniversário da morte de John Lennon, que estaria com 77 anos. Voltando a 8 de dezembro de 1980, lembro que no dia seguinte ouvia em meu Fiat 147 as notícias transmitidas pela rádio onde trabalhava, a Jornal do Brasil AM, o melhor Radiojornalismo do país, até hoje.

Trabalhava, também, como editor de jornalismo da Rádio Cidade (que pertencia ao Grupo JB) para onde rumei. Eram 9 e meia da manhã quando entrei na ponte Rio-Niterói a caminho do prédio do Sistema JB, aquele belo navio ancorado na avenida Brasil 500, hoje sede do Into.

Como boa parte do planeta, eu estava transtornado, confuso, triste, angustiado. Jornalista profissional desde os 16 anos, aprendi nas redações que o melhor remédio para amenizar esse tipo de dor é meter a cara nas notícias, escrever, apurar, enfim, mergulhar de cabeça no fato, enfrentar o monstro de frente. Foi o que fiz.

Meu horário de trabalho era de meio dia e meia as 19h30m, mas fiz questão de assumir o jornalismo da Rádio Cidade as 10 e meia da manhã. Eu e uma equipe de jornalistas, formada somente por mim. Isso mesmo. Eu era o único jornalista naquela adorável e muito saudosa emissora, onde fiz amigos como Fernando Mansur, Romilson Luiz, Eládio Sandoval, etc. 

Evidentemente o dia foi dedicado a Lennon. As 2 da tarde, convidaram um sujeito que o destino colocaria em meu caminho como peça-chave em outras situações. Seu nome: Sérgio Vasconcellos. Foi convidado, naquele macabro dia, a dividir o microfone com Eládio Sandoval falando de John Lennon, Beatles, e tocando raridades.

Apesar do luto, Sérgio deu um show ao longo de toda a tarde, contando histórias de bastidores da banda e de Lennon em particular. Eu me dedicava as chamadas “hard news”, ligando para Nova Iorque, falando com correspondentes do JB.

De 15 em 15 minutos descia para o sexto andar do Jotabezão (as rádios ficavam no sétimo) e ia a sala dos telexes, máquinas que vomitavam notícias 24 horas por dia. Lá também funcionavam as transmissões de radiofoto e telefoto da Agência JB e das norte-americanas UPI e Associated Press, sediadas também no prédio do JB. Abro um parêntese: só muita incompetência e burrice para levar aquele império a falência. Fecho o parêntese.

Numa dessas descidas e subidas, o operador de radiofoto me chamou com uma foto na mão. Nela, John Lennon aparecia morto no necrotério de Nova Iorque. Era um close de seu perfil, nariz curvado, sem óculos, expressão serena. Lógico, não vou publicar a foto aqui.

No dia em que John Lennon morreu, exatos 37 anos atrás, trabalhei muito. Sergio Vasconcellos também. Lizzie Bravo, brasileira que gravou com os Beatles o vocal de “Across The Universe”, estava pelas ruas do Rio, organizando vigílias, enfim, cada um vivenciou o luto à sua maneira. Por volta das oito da noite, fiz a última descida (foram dezenas) a sala dos telexes e as máquinas, que não paravam nunca, histéricas. Peguei o último boletim, acho que da Reuters, com algumas palavras que Paul McCartney conseguiu dizer.

No fim de jornada, abracei Sandoval, Serginho (e peguei o telefone dele), meus amigos do Departamento de Radiojornalismo da JB e fui para o Leme. Sentei sozinho na Fiorentina, que me pareceu deserta, mas na verdade quem estava deserto naquele estranho dia éramos todos nós.

Meses depois, liguei para Sérgio Vasconcellos. O primeiro convidado para participar de uma nova revolução. Em setembro de 1981, começávamos a montar a Rádio Fluminense FM, a Maldita, que entrou no ar em 1 de março de 1982, tendo o Serginho, que se tornou meu amigo, como seu produtor de ponta. 

O resto, todo mundo sabe.

Eu acho.
            

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Devedor de Promessas

Os meses tem características próprias muito marcantes e dezembro talvez seja o de traçado mais gritante. Logo nos primeiros, o maior tumulto.

O trânsito, as calçadas, as lojas, as pessoas, os meios de comunicação. Vão dizer que é por causa do Natal, associado a injeção do 13º. salário, mas não creio que seja somente isso. Mesmo porque, com o desemprego causado pela Dra. Dilma que inventou Temer e seu bando e, de sobremesa, nos serviu uma recessão histórica (sem falar de outros problemas do submundo), não há 13º, nem 8º, nem 1º., nem 5º. salario para mais de 12 milhões de brasileiros.

Penso que a logomarca de dezembro é a ansiedade. Vários fatores se encontram no mesmo cruzamento como, por exemplo, a descabelante perspectiva de um fim de ano com a velha ladainha dos famigerados comentaristas econômicos e suas pregações catastróficas, regadas a mesmice. Além disso há débitos existenciais e afetivos que precisam ser quitados até meia noite de 31 para 1 de janeiro.

Como o roteiro de uma peça de teatro, tudo tem que entrar em cena na hora certa, com o astral certo, com as pessoas certas. Os rituais do Natal, do Ano Novo, as cores das roupas e, mais uma vez, as promessas. Somos escravos de nossas próprias promessas, especialmente em dezembro, quando nos tornamos devedores de promessas.

Dizem que é assim em boa parte do mundo, pelo menos onde o Ano Novo é parecido com o nosso. Em dezembro, não sei com que grana, não só as lojas ficam cheias mas também os consultórios médicos (check ups de fim de ano), dentistas, psicólogos, enfim, nós nos preparamos para uma gigantesca batalha invisível que nós mesmos inventamos que é ter que estar bem, muito bem, na hora “da virada”. Como se fôssemos dormir canários belgas no dia 31 para acordarmos forninhos de microondas no dia primeiro de janeiro.

Entre os responsáveis pela alta ansiedade de dezembro está o implacável bombardeio da propaganda em todos os sites da internet, mais canais de TV, emissoras de rádio, jornais, revistas, panfletos, enfim, todos os meios e formas de comunicação.

O que mais vemos e ouvimos é “corra, porque neste Natal você não vai encontrar nada igual”, ou “há quantos Natais você promete uma casa nova para morar?” e assim vai. Afinal é a data de maior consumo no ocidente.

Como se livrar disso? Acho que não existe uma receita coletiva para escaparmos desse desvairado consumismo somado a promessas que desabam nos ombros já previamente cansados do Ano Novo.

Procurar um bom (ou boa) psiquiatra é um caminho lúcido para dar um tiro mortal na ansiedade, mas ainda rola um papo mofado de que psiquiatra é médico de loucos, blablábláblá. Tem gente que prefere encher a cara de birita do que procurar um especialista “que vai me entupir de remédios”. Mais tarde, alcoólatra, vai ter que procurar o cara que entope de remédios, talvez tarde demais.

A convicção de que não vale à pena sofrer com tanta ansiedade já é um bom caminho e que Saúde e Paz, isso sim, é um lema válido de dezembro a dezembro. E quanto ao espírito de Natal é tão mais profundo e puro que não ouso descrever.

Entendeu?




domingo, 3 de dezembro de 2017

Novas Patrulhas

Começo invocando a Wikipédia:  

Patrulha ideológica ou patrulhamento ideológico é uma expressão cunhada pelo cineasta Cacá Diegues, em 1978. Designa uma organização informal de pessoas unidas por laços ideológicos ou religiosos que tem por objetivo de impor seus ideais a outro grupo de pessoas, munindo-se de discursosprotestos e reivindicações. Essa atividade se caracteriza por uma vigilância constante do público alvo.

Em agosto de 1978, o filme Chuvas de Verão, de Cacá Diegues, foi recebido com frieza pela crítica, que já tinha desancado Xica da Silva, o filme anterior do diretor. Na sequência, Diegues concedeu uma longa entrevista à jornalista Póla Vartuck, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, sob o título "Cacá Diegues: por um cinema popular, sem ideologias", na qual denunciou as "patrulhas ideológicas".

Elas seriam integradas por jornalistas ligados ao Partido Comunista Brasileiro - então clandestino - que teriam a "missão" de denegrir produtos culturais não alinhados a um certo padrão considerado politicamente correto por esses grupos formadores de opinião.

A polêmica que se seguiu mobilizou os meios intelectuais brasileiros da época e rendeu o livro Patrulhas Ideológicas, de Carlos Alberto M. Pereira e Heloísa Buarque de Hollanda (Brasiliense, 1980). No livro, há uma nova entrevista de Diegues, na qual ele define melhor o modus operandi das patrulhas: "O que existe é um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança. É uma tentativa de codificar toda manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa a esta codificação será necessariamente patrulhado".

Com a impressionante evolução da tecnologia da Comunicação, que tornou possível, por exemplo, que um indivíduo com um celular no banheiro de sua casa no Rio, converse com alguém em Moscou, de  1978 para cá as patrulhas se expandiram radicalmente. Além da ideológica, existem patrulhas existenciais, politicamente corretas, sexuais, étnicas, gastronômicas, etecetera .

No pântano da política o pau sempre comeu entre esquerda e direita. PTB versus UDN, Arena versus MDB, mas agora, turbinadas pelas redes sociais as pessoas se agridem, se “matam”, de ofendem, se cospem. E a culpa não é das redes, que são apenas o meio, a mídia. Se elas existissem nos anos 1950 também se tornariam poços de ódio.

No entanto há um dado novo, que já incomodava muito o Cacá Diegues lá em 1978, conforme revela a Wikipédia. Hoje temos que conviver com a ditadura do politicamente correto, que o filósofo Luiz Felipe Pondé, que em seu livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, afirma que era a base do nazismo.

A patrulha ideológica é um dos braços do politicamente correto, praga que cada vez mais acinzenta a paisagem, fulmina o bom humor coletivo, pune quem tem opiniões contrárias a seus mandamentos e em alguns casos defende a corrupção política partidária.

Até quando?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A noite de autógrafos do mestre Carlos Ruas*

                                                          O mestre
                                   A bela família presente na noite de autógrafos
                                              Carlos Ruas: talento e afeto
Foi ontem no Plaza Shopping a noite de autógrafos do livro de fotos do mestre do jornalismo e amigo muito querido, Carlos Ruas, que comemora com mais uma bela obra os seus 90 anos de idade. Amigos, leitores, colegas, estava todo mundo lá.

O livro se chama “Niterói de Outros Tempos”, foi editado pela também jornalista e amiga Cristina Ruas (filha do autor) e foi viabilizado pela Prefeitura de Niterói, através da Secretaria de Cultura e Fundação de Arte de Niterói.

Ao longo de maravilhosas 142 páginas, Ruas exibe a Niterói de outros tempos, desde os anos 1950, quando começou a fotografar profissionalmente. As fotos mostram uma cidade vaidosa, orgulhosa de suas curvas, praias, ruas mas, sobretudo, de sua gente.

Dono de uma rara sensibilidade, Carlos Ruas captou a alma de Niterói, cidade que sempre amou e ama incondicionalmente. Ele fotografava, apurava, entrevistava e escreve brilhantemente. Foi o mais importante colunista social do antigo Estado do Rio, mas também um grande repórter. Suas reveladoras matérias sobre o assassinato de Luz Del Fuego estavam a frente das investigações policiais e por isso se tornaram lendárias.

Com certeza é uma das pessoas mais queridas que conheço. Colega extraordinário, mestre paciente, gentil, amigo, generoso, por onde passa é abraçado, abraça, dá boas risadas, mas os abusados sabem que, ao mesmo tempo, Ruas é um leão que jamais levou desaforos para casa, especialmente de chefes, que falavam fino com ele.

Lendo o sumário de “Niterói de Outros Tempos”, alguns capítulos: Praia de Icaraí; Hotel Cassino Icaraí; Restaurante Samanguaiá; Aterrado São Lourenço e o Centro; Praias oceânicas; Louco por motocicleta; banho de mar a fantasia; O cura ressaca; O café na “porrinha”; Efeitos da fusão; Logomarcas raras; Os bancos de Niterói; Cinemas; etc etc etc.

Grande Carlos Ruas! Niterói agradece por mais esta obra erguida pelo seu afeto genuíno e, claro, com o apoio incondicional de sua bela família.

*Dedicado a saudosíssima e muito amada Dona Lisaura Ruas.



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Caros amigos, onde quer que estejam

Meus amigos são como os amigos de muita gente. Com o passar do tempo, cada um toma um rumo no mundo, na vida, no tempo, nessa maravilhosa bruma chamada existência. Alguns me disseram que também sigo rotas muitas vezes impossíveis de serem seguidas. Será? Pode ser. Não sou dono de verdade alguma.

Meus amigos são quase exatamente iguais a foto que pus ali em cima. Um emaranhado de trilhos aparentemente absurdos, mas certos de suas origens e destinos.

Fato é que não vejo a maioria dos meus amigos há bastante tempo. De vez em quando entro em contato, eles comigo, como vai, vai bem? E aí, o que tem feito? Sabem como é? Conversa de amigo de “meu chapa”, “meu camarada” e rola o tempo, passa a estrada, passam os desvios, os amigos lá, sempre lá. É só precisar e eles aparecem, rapidamente. Meus amigos são pessoas muito especiais.

Pode ser impressão minha, mas a cada ano a gente se distancia mais. Motivos diversos. Mas fica a certeza de que quando precisar, meus amigos aparecem e, logicamente, eu também me junto a eles se precisarem de mim. É só chamar.

Eu ia escrever uma mensagem de fim de ano para eles e para vocês, leitores. Leitores que conheço, que não conheço, mas que estão juntos desta Coluna em busca da felicidade ampla, geral e irrestrita, como aquela anistia de 1979 que, felizmente, aconteceu.

A mensagem deu lugar a este texto, não sei por que. Deixei rolar. Estava sentado no sofá pensando em amigos, histórias, fatos, fotos, momentos, gargalhadas, lágrimas e bateu saudade. Saudade absurda de todos os meus amigos, ao mesmo tempo. Não, não são muitos. Os de fé são poucos.

Na hora da saudade entra até gente que não conheço e conversei dentro de avião, ônibus, metrô, barca, trem. Conversa solta, livre, sincera, bonita, como as amizades. Como a neve gelada do hemisfério norte e a garoa morna do hemisfério sul nesta época do ano. Época de refletir, refratar e, sim, tentar matar a saudade dos amigos. Mesmo aqueles que estão tão distantes que parecem invisíveis.

A mensagem? Escreverei outro dia, quem sabe?


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Rio Show



Sininho – Acorda! Já são sete e meia e o encontro em Vargem Grande começa as nove. Não quero atrasar.

Ben-Hur – Mas hoje é meu aniversário...e tenho um evento importante.

Sininho – Frescura, Ben-Hur. Aniversário é um dia como outro qualquer. Levanta, vai. Levanta aí!

Ben-Hur – Pensei em almoçar com você, meus filhos...

Sininho -  Aqueles dois parasitas? Fala sério, Ben-Hur! Quem pariu Matheus que o embale; essas duas amebas são problema da mãe deles, aquela intelectualzinha de merda. Além do mais eles nem vão lembrar que é seu aniversário...se toca homem. Olha, eu não quero chegar atrasada ao evento das trutas em Vargem Grande.

Ben-Hur – Trutas?

Sininho – Te falei ontem, te falei anteontem, porra. Evento das trutas chinesas amestradas, só vai gente chique.

Ben-Hur – Vai até que horas?

Sininho – Termina meio dia, mas de lá vamos direto para Santa Teresa...

Ben-Hur – Como assim?

Sininho – Não tem como assim, Ben-Hur. Daqui vamos para Vargem Grande. De lá para Santa Teresa e depois direto para Grumari.

Ben-Hur – Fazer o que?

Sininho – Inauguração da exposição de instalações invisíveis de Julieto Di Capri.

Ben-Hur – Quem?

Sininho – Você está cada vez mais lamentável...Julieto Di Capri é o must do must na Europa hoje. Foi capa da Forbes, capa do Le Monde, capa da Quem, capa da Caras, capa da Globo Rural. Às vezes acho que você é débil mental.

Ben-Hur – Mas isso vai até que horas...hoje eu tenho um evento.

Sininho – Vai até a hora que eu quiser.

Ben-Hur – Melhor parar ali para por gasolina.

Sininho – Impressionante...

Ben-Hur – Eu te disse que esse carro chinês é ruim, mas você...

Sininho – Joga na minha cara, covarde! Diz que eu achei bonitinho e você comprou. Quem manda ser babaca?

Ben-Hur – Que horas são?

Sininho - Esqueceu o relógio de novo? Que coisa...quinze para meia noite.

Ben-Hur – Estou atrasado para o evento importante...

Sininho – Daqui não saio. Di Capri ficou todo feliz quando me viu...só tem gente bonita, descolada...vai você, eu me viro sozinha.

Ben-Hur – Tudo bem. Até mais.

Sininho – Como assim, tudo bem e até mais?? Hein? Ben-Hur! Ben-Hur, cadê você? Você nunca disse isso…

Meia noite e meia – Ben-Hur ao evento importante. Chega a pequena capela, enfeitada com luz de velas, ao lado da cachoeira. Chegou a tempo. Cerca de 20 pessoas, amigas, muito amigas.

Meia noite e quarenta e cinco – Amanda entra na capela, braço dado com o irmão.

Uma hora – O juiz considera Amanda e Ben-Hur casados.

Três e quarenta – O avião começa a taxiar. Ben-Hur e Amanda se beijam de novo.

Quatro horas – senhores passageiros com destino...


Dias depois – Walfrido, da seguradora Boas Novas, toca a campainha. A diarista abre a porta da casa de dois andares.

Walfrido – Dona Sininho, por favor.

Diarista – Quem deseja?

Walfrido – Seguradora Boas Novas.

Sininho – Sim...

Walfrido – Trouxe esse carro chinês por ordem do senhor Ben-Hur.

Sininho – Aquele moleque, canalha, escroque...sumiu há dias e ainda tem coragem de mandar esse chinês de lata. Patife, venal...que eu amo tanto...amo tanto...Seu Walfrido, onde ele está?

Walfrido – Assine aqui. Por favor, madame.

Sininho – Mas, e ele?

Walfrido – Deixou esse envelope. Disse que dentro tem um papel com nome e endereço do advogado que vai resolver tudo.

Sininho – Só isso?

Walfrido – Tenha um bom dia.

Sininho – Bandido! Bandido nefasto que...eu amo, eu quero, eu preciso como o ar da noite...água do mar...Ben-Hur, volta meu Ben-Hur.

Diarista – Dona Sininho...ai, meu Deus...quer que eu chame um médico? Hein, 
Dona Sininho? Dona Sininho, acorda! Já são sete e meia!

Sininho - Hoje não é um dia como outro qualquer...











segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Aposentados

A última vez que os dois se encontraram foi numa agência do INSS. Estavam sentados aguardando senhas para serem atendidos e é lógico que se reconheceram. Foram vizinhos da adolescência até os 20 anos quando os roteiros existenciais mudaram seus trajetos. E trejeitos.

Valdo e Alcides iam dar entrada na aposentadoria e cada um segurava uma pasta cheia de papéis minuciosamente organizados. Conversavam amenidades. Saudade da rua onde moraram, de um parque, amigos comuns, os que morreram, os que sobreviveram, pipas, balões, o nado, festas juninas, namoradas. Tinham a mesma idade, mas Alcides desde novo era recatado e moralista enquanto Valdo, sempre que podia, pulava o muro de um sobrado para namorar uma arrumadeira.

O assunto não veio à tona, mas Alcides sempre censurou Valdo. Por sua vez, Valdo fingia que não sabia que o amigo o achava “tarado”, “má companhia”, “matador de aulas”, “alma perdida” etc.

Tudo quase resolvido na Previdência, onde deram entrada nos pedidos de aposentadoria, os dois mais uma vez se separaram e passaram mais uns bons de 10 anos sem notícias mútuas. Até o domingo, numa padaria num bairro distante. Valdo tinha levado uma das netas para fazer prova do Enem e decidiu esperá-la. Deixou o carro num estacionamento e foi tomar café na padaria.
Sentado numa mesinha, perto da porta, viu a confusão. A polícia tinha acabado de invadir a casa de um pedófilo. Em seu quarto, acharam uma criança que estava desaparecida, centenas de fotos, vídeos, aquele quadro hediondo.

Valdo resolveu ir ver o que estava acontecendo e seu queixo quase caiu quando reconheceu Alcides. Era ele o pedófilo. Justo ele, Alcides, o moralista, o bom samaritano, membro da TFP- da tradição, família e propriedade, o homem que achava Valdo um perdido.

- Me tira daqui, Valdo! Eles vão me matar!

Alcides reconheceu Valdo que não conseguia esconder o horror. Mesmo assim ajudou a polícia a afastar a pequena multidão que queria linchar Alcides, um velho decrépito, obeso, inchado, provavelmente alcoólatra que nada tinha a ver com o homem bem vestido de anos atrás na agência da Previdência.

Advogado bem sucedido, Valdo prometeu a Alcides que iria a delegacia depois que sua neta acabasse a prova do Enem, mas quando a doce Camila de 18 anos deixou o portão da faculdade onde fizera a prova e se atirou nos braços do avô, emocionada porque tinha ido bem na prova, Valdo decidiu não mais defender Alcides.

Foi a delegacia comunicá-lo. Numa sala reservada, ambos conversaram.

- Não vou defendê-lo porque um monstro como você não pode circular livremente.

- A culpa é da aposentadoria, Valdo! Eu juro que é! Naquele dia na agência você disse que ia se aposentar mas não iria parar de trabalhar porque se parasse de trabalhar iria morrer ou adoecer...lembro bem que eu respondi que tudo o que queria era vestir um pijama listrado, comprar um canário, uma gaiola e não fazer nada...no máximo jogar uma peteca.

- Aqui está o seu hediondo prontuário...culpa da aposentadoria...aquele papo de “cabeça vazia é oficina do coisa ruim”...vejamos, há 20 anos atrás você foi acusado de estuprar a primeira criança nas imediações do sindicato que presidia.

- Eu fui inocentado! Eu fui inocentado!

- Foi inocentado porque esses dois políticos aqui entraram no circuito temendo que você falasse de uma operação financeira ilegal que o seu sindicato estava fazendo para eles.

- Eu fui inocentado!

- Cale a boca! Todo o homem não imbecil sabe que parar de fazer as coisas, “encostar” como dizia uma gíria antiga, adoece e mata, mas não adoece o caráter. Você sempre foi podre, Alcides, mas escondia esse esgoto no moralismo, na UDN de macacão que é o seu partido político, mania de acusar as pessoas de vagabundas das elites. Você teve uma única namorada, com quem casou e se vangloriava disso, se achava um exemplo de comportamento, mas já estava no desvio como mostram essas suspeitas aqui. Foi quando sua mulher fugiu de casa enojada. Você conseguiu enganar até o dia que se aposentou e parou. Quando parou o seu lixo boiou publicamente.

- Eu fui inocentado!

- Se eu pudesse te matava, Alcides, mas não sou assassino. Sou “tarado”, lembra? Sou “má companhia”, “matador de aulas”, “alma perdida”, lembra? Mas não sou assassino.

- Eu fui inocentado! Não me abandone.

Valdo levantou e deixou a delegacia. Os programas de TV estilo mundo cão massacravam Alcides, pediam pena máxima para ele.

Como era previsto por todo mundo, Alcides foi encontrado morto na cela na manhã do dia seguinte. Ao ouvir a notícia no rádio, a caminho do escritório, Valdo lembrou de Alcides.


“A culpa é da aposentadoria!”.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

“1973- o ano que reinventou a MPB”, de Célio Albuquerque vai virar série do Canal Brasil


“1973- o ano que reinventou a MPB”, de Célio Albuquerque 431 páginas) vai virar série do Canal Brasil, já em produção. Maravilha!

O excelente livro foi lançado pela Sonora Editora, do pesquisador musical Marcelo Froes e é leitura fundamental para quem se interessa por música brasileira de qualidade. Cada autor conta como um álbum (LP na época) foi feito. Como, quem, onde. Está tudo lá.

O livro chegou num momento especial, difícil, complicado, bizarro da música brasileira que está assolada pela molambalização, baixaria e outros conceitos ainda menos dignos.

Lembrar de épocas como 1973 foi uma grande sacada do Célio, um viciado em qualidade como todos os ensaístas que estão à bordo deste livro. Ou seja, a necessidade de conhecer a fundo ou de relembrar bons momentos, faz de “1973- o ano que reinventou a MPB” uma iguaria necessária nesses tempos de fome de qualidade musical que estamos vivendo.

Bom saber que houve um tempo que mostrou que é permitido criar, ousar, delirar, surfar as ondas da qualidade musical, sem medo, sem jabá, sem baixaria.

Célio Albuquerque está de parabéns pela organização do livro, cujos textos são extraordinários. Marcelo Froes merece aplausos por ter colocado a sua Sonora editora à frente deste ousado movimento (sim, o livro é sobre um “movimento” com nome de ano, 1973), em tempos de arrego editorial.

Best seller. “1973- o ano que reinventou a MPB” está “condenado” a se tornar um, apesar de não ser de autoajuda ou de baixa literatura.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

32 de dezembro

Segunda-feira anormal como outra qualquer.

Entra no ônibus pensando no nada ignorando o falatório em volta. Para, anda, para, anda.

De propósito desce fora ponto, entra no bar “Do Nunca”. Bebe leite morno, não paga e sai. Reto. Reto. Reto.

No trabalho, muitas horas extras. 31 de dezembro. Projetos, softwares, alguns risos aflitos das secretárias tramando o reveillon com amigas no celular.

Sete da noite. Só na corporação. Mesas desarrumadas, uma ou outra cadeira fora do lugar, ar condicionado central no máximo. Só na corporação. Vidros duplos a prova de som, potentes computadores de última geração processando projetos, inventos, planilhas, manuais, procedimentos.

Nove da noite. Pega o telefone. Não há para quem ligar. Desliga. Senta em frente ao computador principal. Procedimento previsto para as nove da noite ali, três da tarde lá. Lá, Los Angeles, L.A. 

Enter. OK.

Onze da noite. Duplo procedimento. Demorado. Complicado. Cinquenta e sete minutos. 

Enter. OK.

Onze e cinquenta e oito da noite. Silêncio. Os dois seguranças na sexta ronda de rotina entram no salão. Desejam feliz ano novo.

Meia noite e cinco. Deixa o prédio e caminha entre o estrondo e as luzes dos fogos de artifício. Pessoas gritam nas janelas, celebrando o que acham que precisam celebrar.

Meia noite e vinte e três. Táxi.

Uma e doze da madrugada. Desce do táxi.

Uma e vinte da madrugada. Outro táxi.

Vinte horas e quinze minutos. Entra na casa. Velha conhecida. Bate o portão com as filhas gêmeas penduradas no pescoço.


Enter. OK.