sábado, 3 de junho de 2017

50 anos sem Luz Del Fuego: "Para a fome, temos o pão. Para a sede, a água. Para a imoralidade, a nudez!"

                                              








Dia 17 de julho, não serão lembrados os 50 anos da revolucionária Luz del Fuego. Por que? Ela foi uma das mulheres mais politicamente incorretas, logo livres e libertárias, do planeta. Luz Del Fuego era o nome artístico da capixaba Dora Vivacqua, que faria 100 anos em fevereiro deste ano. 

Foi naturistaatrizescritora feminista. Destacou-se como pioneira na implantação do naturismo no Brasil entre os anos 1940 e 1950, fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina e a primeira nudista brasileira. É também reconhecida por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres.

Os dias de hoje não comportam uma Luz Del Fuego. Ela brutalmente assassinada na Ilha do Sol, perto de Paquetá. Tinha 50 anos. Hoje, com certeza com certeza os corretinhos de plantão da esquerdose nacional iriam apedrejar na mídia a mulher que gostava de andar nua, se sentia livre e liderava o feminismo autêntico e não fashion no país. Para “piorar”, era bonita e gostosa.

Gostaria muito de ter entrevistado essa mulher rara. Sua biografia conta que ela estreou oficialmente como artista e dançarina em 1944, com espetáculos por ela idealizados — como a própria afirmou, uma vez mais à revista Carioca, àquele ano —, intitulados Tentação de EvaLenda da cobra grandeBaile de CleópatraMacumba para prender um amorFrevo — uma mistura de dança e mímica — Batuque e Cocktail, para além de Noturno Carioca, este escrito por Ary Barroso.

A sua primeira exibição no teatro de revista ocorreu em agosto do mesmo ano, na peça Tudo é Brasil. Em 1945, a dançarina exibiu-se em casas de espetáculos pelo Panamá, Uruguai e Buenos Aires, e em 1946, estreou nos cinemas nacionais, na produção No Trampolim da Vida, em que apresentou "números excitantes com cobras vivas", nas palavras de um repórter do periódico A Scena Muda, em dezembro de 1946.[No ano seguinte, embarcou em uma excursão por Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde se apresentou em danceterias noturnas por três meses.

Fundadora do naturismo no Brasil, ela defendia lá nos anos 40:" Adão e Eva andavam nus. Quando se nasce, não se traz roupa sobre o corpo. As vestes são artifícios dos quais os homens se valem para encobrir coisas naturais". De volta ao Brasil, em 1948, a dançarina começou a expor seus ideais e tentou resgatar a prática dos primeiros habitantes do Brasil, muito comum em países europeus desde 1903. Com a publicação do livro A Verdade Nua, que vendeu milhares de exemplares em apenas quatro dias, ela lançava a teorização do movimento naturista brasileiro e defendia o nudismo das acusações de imoralidade. Num trecho da obra, escreveu: "Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder".

Em 1949, iniciou uma série de espetáculos pelas danceterias do Norte e Nordeste do país, tendo sido impedida de apresentar-se pelas autoridades no Maranhão e submetida a restrições em Fortaleza. Embora não dominasse habilmente a dança nem a atuação, Luz del Fuego conquistou imensa popularidade com os seus espetáculos pelo país.

Apesar de não usar o nome de batismo, a família Vivacqua ficou furiosa com a profissão escolhida por Dora, especialmente o seu irmão Attilio, que fora eleito senador e considerava a associação prejudicial à imagem como político. Numa entrevista com a Revista do Rádio, em 1950, del Fuego apontou os seus familiares como os seus principais "perseguidores", enfatizando Attilio, que se utilizava do cargo para impedi-la de exibir-se em teatros e danceterias. Em 1951, fundou Naturalismo, a primeira revista do país a exibir genitálias em suas publicações, que teve 21 edições até 1954.

Sofreu pesada repressão num Brasil, àquela época, nem sequer era permitido o uso de maiô de duas peças nas praias e as suas ideias e apresentações trouxeram-lhe vários problemas, como acusações de atentado ao pudor e aos "bons costumes", diversas multas e intimações a delegacias.

Numa atuação em São Paulo, em 1951, por exemplo, foi detida durante o espetáculo devido aos seus trajes e acabou por ser multada, embora tenha declarado: "Nunca me apresentei tão vestida no palco!". Numa de suas passagens por Belo Horizonte, em 1952, causou alvoroço entre a população e recebeu ordens do prefeito para deixar a cidade imediatamente. Em 1953, um grupo católico de Juiz de Fora, liderado pelo bispo Dom Justino José de Sant'Ana, da arquidiocese local, conseguiu fazer com que as autoridades não a permitissem apresentar-se no município.

Casos semelhantes foram registrados noutras regiões, como em Sergipe e Valença, tendo sido, em ambas, impedida de atuar. Também em 1953, foi detida e condenada a seis meses de prisão por atentado ao pudor e desacato à autoridade em uma festa carnavalesca, mas absolvida, e orientada a submeter-se a exames de sanidade mental por um representante do Ministério Público, em 1955, que sugeriu o seu internamento em um manicômio. Os métodos que utilizava para promover as suas ideias, como uma aparição no Viaduto do Chá, em São Paulo, fantasiada de Iemanjá e completamente sem roupas, ou apresentações seminua em carros abertos na Avenida Atlântica, no Rio, em que dançava e exibia as serpentes aos que ali estivessem presentes, também resultaram em detenções.

Tentou lançar-se na carreira política com a fundação do Partido Naturalista Brasileiro, em 7 de setembro de 1949, que defendia o estabelecimento de espaços públicos nos quais famílias pudessem criar uma relação harmoniosa com a natureza totalmente despidos e cujo slogan, "Menos roupa e mais pão! Nosso lema é ação!", repercutiu em todo o país.

A naturista o promovia durante as suas excursões pelo país, distribuindo panfletos com as escritas: "Para a fome, temos o pão. Para a sede, a água. Para a imoralidade, a nudez!". O partido conseguiu 50 mil assinaturas apoiando-o, mas não foi registrado devido à perda dos documentos, como revelou a própria Luz, em setembro de 1950: "Já estava quase registrado meu partido. Para que ele fosse realmente forte, eu queria obter a adesão de um grande figurão da política. Por isso, dirigi-me ao senhor Salgado Filho, que me recebeu muito bem, dizendo que ia entender-se com o senador Getúlio Vargas para esse fim. Na última viagem que ele empreendeu ao Sul, levou consigo o meu memorial que continha as 50 mil assinaturas de adeptos do P.N.B. Faça ideia, agora, como sofri, quando tive notícia do trágico desastre em que pereceu o senador Salgado Filho, pois, como sabia, o documento assinado pelos meus eleitores também havia sido queimado no horrível desastre...". Embora se tenha noticiado aquilo à época, sabe-se, hoje, que foi Attilio quem pôs fim aos documentos.

Luz del Fuego recebeu convites para excursionar pelos Estados Unidos e pela Europa, bem como para realizar um espetáculo para o Rei Faruk do Egito. Além disso, continuou a destacar-se nos palcos de teatros como o Recreio — com as suas apresentações baseadas no folclore brasileiro —, o República e o Follies. Para O Nu Através dos Tempos, que estreou em 1951, no República, por exemplo, a dançarina atraiu 293 975 espectadores em apenas um mês. Sobre o espetáculo, um repórter do periódico A Manhã declarou: "De há muito o Teatro República não registra sucesso igual!". Luz e Elvira Pagã foram chamadas "as responsáveis por provocar verdadeiras explosões de gargalhadas" pelo Diário da Noite, em referência ao êxito Balança Mas Não Cai, do Teatro Carlos Gomes. O sucesso também lhe permitiu protagonizar os filmes Folias Cariocas e Não Me Digas Adeus, fê-la estampar a capa da revista americana Life e consagrou-a como uma das vedetes mais populares de sua época no Brasil, de modo que repórteres da Revista de Copacabana descreveram-na como "um dos nomes de maior evidência do mundo artístico brasileiro". Em 1959, após quatro meses a atuar em outro êxito, Mulher... Só Daquele Jeito, no Teatro Carlos Gomes, recebeu propostas para realizar apresentações em Las Vegas, nos Estados Unidos, remuneradas com mil dólares diários — à época, cerca de 150 mil cruzeiros.

Quando A Verdade Nua foi lançado, as autoridades brasileiras conservadoras logo trataram de eliminar quaisquer sinais da publicação nas livrarias, e a obra passou, então, a ser comercializada somente por reembolso postal.

Todo o dinheiro arrecadado com as vendas seria utilizado para a fundação do reduto naturalista que Luz del Fuego tanto almejava. Na primeira metade dos anos 1950, a atriz obteve uma autorização da Marinha do Brasil para viver na ilha Tapuama de Dentro, que possui mais de oito mil metros quadrados, e a rebatizou de Ilha do Sol. Lá, fundou o Clube Naturalista Brasileiro, em 1951, o primeiro do gênero na América Latina e sobre o qual mantinha rígido controle, não permitindo a entrada de bebidas alcoólicas, proferir palavrões nem a prática de relações sexuais na colônia, distinguindo nitidamente o conceito de naturalismo. Também não era permitida a entrada de menores de idade e, caso uma pessoa fosse comprometida, o parceiro tinha de estar ciente de sua visita à ilha. Luz promovia a prática de atividades esportivas, como vôlei, banhos de sol e mar, e encenava peças teatrais e filmes — em geral, documentários sobre as colônias nudistas europeias. Pela iniciativa, recebeu uma carta dos organizadores da Confederação Nudista da América do Norte, em 1952, dando parabéns.

A Ilha do Sol não foi incluída na lista dos roteiros turísticos do Rio de Janeiro, mas tornou-se extremamente popular e atraiu, inclusive, personalidades do cinema americano, como Errol FlynnLana TurnerAva GardnerGlenn FordBrigitte Bardot e Steve McQueen. Segundo o Correio da Manhã, mais de três milhões de mineiros visitaram a ilha. O local foi incluído nos registros da Federação Internacional Naturalista da Alemanha e conseguiu 240 sócios, e todos que desembarcassem na ilha só poderiam ficar se estivessem totalmente nus.

Nos anos 1960, Luz del Fuego foi morar na Ilha do Sol. Àquela altura, com mais de 40 anos de idade, ela não atraía mais o interesse de homens influentes como antes e passava por dificuldade financeiras. Entre 1960 e 1961, atuou em Carnaval da Ilha do Sol, no Teatro João Caetano, com Wilza Carla e Costinha, e, em 1962, apresentou-se em Campos do Jordão e recebeu propostas para excursionar pela América do Sul.

Afastou-se dos teatros de revista nesse mesmo ano, retornando somente em 1964 com espetáculos em São Paulo. Numa entrevista concedida à Revista do Rádio, em 1965, Luz afirmou ter-se ausentado dos teatros para dedicar-se à reforma da Ilha do Sol, com a qual gastou trinta milhões de cruzeiros em construções, inclusive de um restaurante nudista. "Quando comprei e fui morar na Ilha do Sol, aquilo não passava de um recanto deserto, dentro da Baía de Guanabara. Não havia nenhuma casa. Dediquei-me, então, à construção de várias moradias, permanecendo ali meses seguidos sem vir ao Rio", justificou ela.

A artista pretendia reabrir a ilha em março para os festejos do Quarto Centenário do Rio. Ainda àquele ano, a dançarina estrelou Boas em Liquidação, com Sônia Mamede, no Teatro Rival, que registrou boa bilheteria, e foi convidada pela Federação Internacional de Nudistas para viajar à Alemanha, onde concorria ao título de "Mais Bela Nua do Mundo".

Em outubro de 1965, Luz queixou-se à polícia da visita de bandidoses à Ilha do Sol, como os irmãos pescadores Alfredo Teixeira Dias e Mozart "Gaguinho". Meses depois, del Fuego dirigiu-se novamente às autoridades e denunciou-os pela prática de ações criminosas na região, inclusive pelo assassinato de um outro pescador, tendo informado à polícia o local onde Alfredo estava escondido Na noite de 19 de julho de 1967, uma quarta-feira, Alfredo convocou o irmão para ir à Ilha do Sol para conversar com Luz, porém, revelou durante o percurso que a pretendia assassinar para vingar-se da artista.

Quando a dupla chegou à Ilha, os cães da dançarina fizeram alarde e ela apareceu em seguida, portando um revólver. Alfredo, então, disse-lhe que a embarcação por ela utilizada para transporte is ser roubada e a convenceu de ir com ele atrás dos "criminosos". Ao se afastarem da ilha, ele desferiu-lhe violento golpe na cabeça, que a fez cair. Em seguida, abriu-lhe o abdome com um facão. Os dois retornaram à ilha, onde encontraram o caseiro Edgar Lira e com ele fizeram o mesmo. Alfredo e Mozart, então, amarraram os corpos a pedras, lançaram-nos ao mar e depois retornaram à ilha para saquear a residência da vítima.

O desaparecimento de del Fuego repercutiu nos noticiários de todo o país e chegou a ser encarado como um golpe de publicidade por alguns meios de comunicação. Al hipótese foi descartada após o delegado Rui Dourado, da Terceira Delegacia Distrital, encontrar, no dia 23, a residência da artista revirada e com objetos de valor roubados. Os policiais fizeram as buscas pela Ilha do Sol, Niterói e por ilhas vizinhas, onde acreditavam estar escondido Mozart, o segundo suspeito, que havia assaltado a residência da naturista três vezes, e à procura de dois pedreiros que trabalhavam para Luz e haviam desaparecido após o acontecido.

No dia 25, a embarcação da dançarina foi encontrada próxima à Ilha do Braço Forte por portuários, que perceberam nela manchas de sangue e resolveram comunicar às autoridades. Também os familiares da nudista afirmaram, nesse mesmo dia, não saber onde ela estava. Cada vez mais convencidos de que a atriz havia sido assassinada, os policiais iniciaram buscas pelo mar.

Os corpos de del Fuego e de Edgar foram encontrados apenas em 2 de agosto. A cerimônia fúnebre da artista ocorreu no dia seguinte, no cemitério São João Batista, e foi realizada por amigos e alguns familiares; Edgar foi sepultado no dia 4.