quinta-feira, 1 de junho de 2017

Santos Dumont e as asas da sua loucura

Acabei de ler e recomendo “Asas da loucura: a extraordinária vida de Santos-Dumont”, do inglês Paul Hoffman. A grande loucura do pai da aviação era o céu que, desde pequeno, não cansava de contemplar na fazenda do pai, milionário, no interior de São Paulo. O livro conta que o pequeno Alberto Santos-Dumont observava as aves voando e, muito curioso, queria saber como, já imaginando que um dia os homens também poderiam estar no céu.

Seus pais estranhavam o comportamento daquele menino magro, pequeno, que vivia isolado, a ponto de ler toda a biblioteca da fazenda. Cresceu sem desvendando os mistérios da ciência por conta própria.

Milionário de berço, sua vida em Paris, anos depois (não vou estragar a narrativa do autor dizendo como ele foi parar lá) foi marcada por bons e importantes amigos. Um deles, Gustave Eiffel, o projetista da torre que, por sinal, morava lá num pequeno apartamento no segundo andar. O sonho de Santos Dumont (concretizado várias vezes) era dar uma volta de balão na Torre Eiffel.

Outra figura de sua roda de amigos foi Louis François Cartier que, mobilizado por uma conversa com Dumont a respeito da dificuldade de consultar a hora lá nas alturas, inventou, para ele, o relógio de pulso. Amado pela Europa, herói nacional na França que parecia um pop star, Santos Dumont transformou o relógio de pulso em moda mundial e deu no que deu.

Ele era boêmio. Virava noites no Maxim’s, onde na esquina do seculo 19 com o 20, o consumo da recém lançada heroína, pelo químico Felix Hoffman em 1897, cocaína, bolas e ópio estavam no auge entre intelectuais. Santos-Dumont agradecia mas descartava. Seu negócio era com o céu e com a elegância. Usava o tradicional chapéu panamá, vestia cortes caríssimos feitos por renomados alfaiantes. Vaidoso, andava e voava impecável. Era um gourmet e adorava almoçar, por exemplo, um filé de linguado acompanhado de iguarias raras (pratos montados por grandes chefs) sempre com champanhe de ótima safra, de preferência na cesta dos balões. Nos longos voos ele armava a “mesa” no fundo da cesta e comia ao sabor do vento.

Muitos diziam que era louco. Não era. Perfeccionista, ele acompanhava a construção de seus projetos pessoalmente, subvertendo a física e muitas vezes a matemática. Ao contrário de, pelo menos, 200 equivocados que tentaram voar colando penas de ganso nos corpos e se atiraram de lugares bem altos, morrendo espatifados, Dumont arriscava baseado em seus cálculos. Caiu muitas vezes, mas era sortudo. Aliás, gostava de desafiar superstições como, voar no dia 13, especialmente se fosse uma sexta feira.

O Brasil tem muitos heróis. Penso que Santos-Dumont seja o maior deles por quebrar vários paradigmas universais. Na verdade ele inventou não só a aviação mas implantou, na Europa, o conceito de revoluções crônicas em oposição a letargia do conservadorismo. Lógico, não foi detalhar o fim da história, mas aqueles que pensam que ele teria ficado deprimido com o uso dos aviões na I Guerra Mundial, a princípio não. Foi dele a ideia de usá-los para bombardear submarinos inimigos já que, como observou, “do alto o mar fica bem mais transparente”.

Mais tarde, conta o livro, Dumont passou a sofrer com a matança proporcionada pelos aviões e, também por isso, mergulhou na depressão. Ele se achava responsável pelas mortes por ter inventado o avião e cegou a procurar líderes dos países em guerra para tentar convencê-los a parar. Não adiantou.